A Pandemia de Gripe Espanhola em Sergipe – 1918 (por Antonio Samarone).

Redação, 19 de Junho, 2020 - Atualizado em 19 de Junho, 2020

 

Entretanto, o ciclo das grandes epidemias ainda não havia terminado em Sergipe. Em outubro de 1918, durante as festas de posse do novo Presidente do Estado, Coronel José Joaquim Pereira Lobo, Sergipe é violentamente atacado pela epidemia de gripe espanhola.

Essa foi a última epidemia a manifestar-se em Sergipe no estilo “pestilencial”, dizimando e aterrorizando as pessoas, e com o poder público e a medicina agindo quase tão somente na minimização das consequências sobre os indigentes.

A saúde pública, nesse período, já estava mudando as suas preocupações, começando a priorizar as endemias rurais, principalmente aquelas que atingiam a força de trabalho.

Em 20 de outubro de 1918, desembarcam do “Vapor Itapacy” seis pessoas contaminadas pelo referido mal. Logo que a informação chegou ao conhecimento do Diretor de Higiene, essas pessoas foram removidas para o Lazareto Público, mas já era tarde.

Em 04 de novembro, o mal já havia se espalhado pelo Estado, sendo a primeira vítima fatal Georgina de Jesus, negra de 25 anos e residente na rua de Campos, em Aracaju.

O Governo tomou todas as providências que a sua estrutura permitia: criou o “Serviço de Combate à Gripe Espanhola” e entregou a coordenação ao Dr. Eronides de Carvalho.

Convocou, para fazer parte do serviço, todo o pessoal médico ligado aos serviços públicos, ou seja, os Drs. Octaviano Melo, Diretor de Higiene; Pimentel Franco, Diretor da Assistência Pública; Carlos Menezes, Diretor do Gabinete de Identificação e Estatística e Médico legista da Policia; Álvaro Telles de Menezes, médico da Prefeitura e Alexandre Freire, Diretor do grupo Escolar “General Valladão”.

Além do seu pessoal, comissionou ainda os Drs. José Francisco da Silva Melo, médico, e Durval Madureira Freire, João Alfredo de Marsillac Motta, José Alves Tavares e Pedro Garcia Moreno, farmacêuticos, e Francisco Accioly Sobral, cirurgião-dentista.

O Presidente recorreu à Assembleia Legislativa pedindo liberação de recursos para enfrentar o problema. Em 08 de novembro, a lei n.º 765 abre créditos especiais de 10 contos de réis para o combate à epidemia e, poucos dias após, em 16 de novembro, a gravidade e velocidade de expansão da doença obriga a aprovação de uma nova lei, a de n.º 766, abrindo créditos de cem contos de réis para o mesmo fim.

A previsão orçamentária do Estado para o ano de 1918, destinava à rubrica Higiene e Saúde Pública pouco mais de 33 contos de réis.

Diante das deficiências do Poder Público para enfrentar a epidemia, a sociedade reagiu de forma inusitada: pela primeira vez, em Sergipe, a população se mobiliza para enfrentar um problema de saúde. Entidades, empresas, clero, instituições beneficentes movimentaram recursos e pessoas para enfrentar a epidemia.

A loja Maçônica “Cotinguiba” assumiu a responsabilidade pela assistência da área que ia da rua Barão de Maruim até a localidade denominada “carro quebrado”. A Maçonaria entregou a coordenação dos trabalhos ao professor José de Alencar Cardoso, e contratou o Dr. Berílio Leite para realizar os trabalhos clínicos. 885 doentes foram atendidos pela loja maçônica, com 19 óbitos.

Importante também foi a participação da Associação Comercial, responsável pelas ruas Divina Pastora, Bonfim, Socorro, Vitória, Desaperta, Topo e Ignácio de Loyola.

A entidade comercial contratou os serviços clínicos do Dr. Álvaro Teles de Menezes e atendeu a um total de 795 doentes. O Posto de Santo Antônio atendeu 1.200 doentes e ficou sob a responsabilidade do padre Abílio Mendes, de Garcia Rosa e Silvério Fontes e os serviços clínicos entregues à farmacêutica Cesartina Regis.

Participaram também no combate à epidemia a Cruz Vermelha (320 doentes), Hospital Santa Isabel (50 doentes), quartel do 41.º Batalhão de Caçadores (352 doentes), fábrica Confiança (382 doentes), fábrica Sergipe Industrial (763 doentes), Escola de Aprendizes de Marinheiros (72 doentes), quartel de polícia (77 doentes), cadeia pública (83 doentes), Compagnie des Chemins de Fer (123 doentes) e Lazareto Público (32 doentes).

O atendimento consistia, basicamente, na distribuição de medicamentos entre a população indigente, distribuição de alimentos ou dinheiro, desinfecção das casas onde ocorriam óbitos e na remoção dos cadáveres.

O tratamento usado para enfrentar a gripe era um purgativo, óleo de rícino ou água laxativa vienense, um antitérmico, cápsula de aspirina, pyramidon ou antipyrina, e um xarope de alcatrão. Para desinfetar as casas usava-se creolina, alcatrão e gás sulfuroso, como também se queimava alcatrão nas ruas e praças.

“Em noite de 03 de dezembro de 1918, ordenei que se queimasse alcatrão nas praças Tobias Barreto e na do mercado, bem como nas ruas de Estância, Laranjeiras, São Cristóvão, Tôpo, São José, Estrada Nova, Alecrim, Geru, Divina Pastora, Bonfim, Victória e São João.”

Apesar da elevada mortalidade, a maior parte dos casos de gripe eram benignos, agravados pela extrema miséria de grande parte da população.

A parte mais importante do atendimento era assistência social, exacerbado durante as crises epidêmicas, uma vez que o medo do contágio para os ricos e remediados estimulava esse tipo de prática, por parte do Estado, e despertava o adormecido sentimento filantrópico de uma parte da sociedade.

As condições sanitárias só eram consideradas como graves durante as crises epidêmicas; as doenças endêmicas e crônicas que matavam lentamente a população pobre (gastroenterites, tuberculose, sífilis, lepra, desnutrição), desde que não ameaçasse as elites, eram vistas com naturalidade e resignação.

Esse ofício do Delegado de Higiene de Japaratuba, farmacêutico Helvécio Campos, ao Diretor da Saúde Pública demonstra muito bem o caráter de “assistência social” do atendimento:

“Solicito a Vossa Excelência em prol dos indigentes aqui atacados pela gripe espanhola algum auxílio. São numerosos os casos verificados e o pequeno auxílio em dinheiro que a Intendência tem prestado, dentro do seu limitado orçamento, é insignificante. Os povoados São José da Catinga, Marimbondo, Aguada e mesmo Pirambu estão em completo abandono, sendo neles extrema a pobreza. Rogo a Vossa Excelência providências como melhor julga.”

Como demonstração da importância do atendimento prestado pela sociedade civil em Aracaju durante a epidemia, a Diretoria de Higiene, ou seja, o Poder Público, atendeu 2.790 doentes, enquanto as organizações não governamentais atenderam 4.488, ou seja, quase o dobro do Estado.

O número de casos registrados e o número de óbitos da epidemia de gripe espanhola, segundo o relatório de 1919, do Presidente Pereira Lobo à Assembleia Legislativa, foi o seguinte:

Casos e óbitos por gripe espanhola em Sergipe, no ano de 1918:

Aracaju 7.974 casos e 229 óbitos; São Cristóvão 408 – 22; Itaporanga 218 – 06; Salgado 646 – 24; Boquim 615 – 28; Estância 2.150 -77; Arauá 250 – 10; Riachão 303 – 10; Vila Cristina 363 – 12; Santa Luzia 442 – 06; Espírito Santo - 50; Itabaianinha 728 – 21; Lagarto 3.000 – 90; Anápolis 136 – 06; Itabaiana 1.700 – 120; Riachuelo 195 – 24; Divina Pastora 42 – 01; Santa Rosa 53 – 02; Campo do Brito 800 – 45; Laranjeiras 1.365 - 62; Maruim 916 - 22; Socorro 482 - 24; Dores 600 - 17; Capela 400 - 16; Propriá 1.125 – 52; Porto da Folha 825 - 65; Gararu 123 - 06. Total de 25.910 casos notificados e 997 óbitos.

Fonte: Relatório do Presidente do Estado, Pereira Lobo, à Assembleia Legislativa, em 07 de setembro de 1919.

Como se percebe na tabela acima, foram notificados 25.910 casos e 997 óbitos durante pouco mais de 3 meses que durou a epidemia em Sergipe.

Aqui, os dados também foram contestados, inclusive pelo próprio chefe do combate, Dr. Eronides de Carvalho, que em seu relatório, já citado nesse trabalho, afirma que o número de casos deve ter sido bem superior devido a duas razões principais: os serviços de registros não eram merecedores de fé e só eram registrados os casos que se verificavam em indigentes que precisaram do socorro público.

O que ficou demonstrado é que Sergipe, pelo menos até o ano de 1919, ainda não tinha como enfrentar as epidemias. As ações eram improvisadas.

Nesse caso da gripe espanhola toda rede escolar foi fechada, como várias outras instituições coletivas. O que ficava cada vez mais claro era a necessidade de uma ampla reforma dos serviços de higiene e saúde pública.

O tema passou a ser amplamente discutido pela sociedade, mesmo porque, surge também em Sergipe a preocupação com a proteção da força de trabalho. Uma publicação do Delegado de Saúde de Estância, Dr. Jessé Fontes, defendendo a criação da “Liga Pró-Saneamento”, deixa esse ponto de vista muito claro:

“Do que adianta o Governo Federal pedir que se intensifique a produção agrícola, e que aproveita o Governo do Estado em distribuir sementes a granel, quando os nossos agricultores lutam com a falta de braços para a lavoura, e os poucos que possuem se acham invalidados pela doença, e suas inseparáveis companheiras, a miséria e a fome.”

O que percebemos é que no final desse período, os problemas de saúde começam a receber um novo enfoque. A visão pestilencial, representada pelas grandes epidemias dizimadoras de uma população indefesa e aterrorizada, ignorava as precárias condições de saúde do dia-a-dia, a desnutrição, as doenças crônicas (lepra, tuberculose, sífilis, amarelão, diarreias, etc.) e a morte precoce.

A preocupação central da saúde pública era o contágio das classes dominantes, durante as epidemias e, até certo ponto, com a carência de mão-de-obra no pós Pandemia.

A mudança que começa a se manifestar é a valorização das endemias rurais, do saneamento, do trabalho permanente da saúde pública, como fator indispensável ao desenvolvimento.

A higiene passa a ser vista como fator fundamental para o aumento da produtividade do trabalho. A figura do “Jeca Tatu”, pobre, indolente, improdutivo é atribuída à opilação, ou seja, a uma doença; isto significa que as ações sanitárias que eliminam as doenças passam a ser vistas como necessárias ao desenvolvimento econômico.

Essa ideologia chegou rapidamente a Sergipe.

Antonio Samarone.

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