O Construtor João Alves (por Marlene Calumby)

Redação, 02 de Agosto, 2020 - Atualizado em 02 de Agosto, 2020



João Alves veio de baixo. Fez o seu pé-de-meia empresarial com muito esforço e sacrifício. Não se vendeu nem se trocou. Não corrompeu, nem foi corrompido. Milhares de aracajuanos gozam da felicidade de possuir a sua “casinha” graças a benevolência de João ao seu estímulo, facilitando o empréstimo, os juros e, até a “entrada” para aquisição do imóvel desejado. Nunca tomou a casa de ninguém só porque atrasou o pagamento das prestações.

Era um sonhador nato, certa vez sentado a tardinha na amurada que circunda a pequena praça no alto da colina do Santo Antônio, braço sobre os ombros do seu primogênito João Alves Filho, de braço estendido apontava pontos distantes daquele belo panorama, que ia do verde forte, que revestia a linha do horizonte como um invólucro por quilômetros, até alcançar o azul pálido do mar, lá bem distante onde a vista mal conseguia distinguir. E o garoto sonhava a certeza do pai, que garantia: “esta cidade meu filho é do mar e vai crescer muito em direção às praias”.

Foi na Rua Divina Pastora, nos idos da década 40, que João Alves começou uma atividade que iria desenvolver por mais de 50 anos em Aracaju. Construiu ali sua primeira casa e, logo em seguida, outra residência, na rua Oliveira Ribeiro. Enquanto isso, no bairro Santo Antônio, na Rua do Carmo ergueu com as próprias mãos, tendo como auxiliar de pedreiro (que era ele mesmo) D. Lourdes, cuja parceria era preciosa; João preparava a masseira e quando o assentamento dos tijolos chegava a uma certa altura, ele subia numa pequena escada de madeira, feita por ele mesmo com caibros, enquanto sua companheira trazia a massa em pequenos baldes.

D. Lourdes ajudou também na entrega dos caibros, ripas e azulejos, ripas e telhas que foram colocados na casinha do casal. E, claro, teve a comemoração tradicional da “festa” da cumeeira. Foi ali que João construiu família. A casa era simples, mas era para ele um relicário.

Tudo era novo.

Casinha de tijolos, com massa de cimento 3 por 1, masseira bem feita, tudo no capricho. Seria o lar da sua família. Testada de platibanda, janelão, corredor, até a sala de jantar, copa e cozinha, com os quartos na extensão do corredor. Era o luxo da simplicidade, costuma repetir.
Lembrar que era comum o veículo do DER ir até a sua casa, por ordem do Engenheiro José Rollemberg Leite (que anos depois seria governador do Estado) para as viagens que fazia pelas estradas do interior. A garotada da vizinhança e os filhos ainda pequenos ficavam alvoroçados e faziam algazarra enquanto se acercava do veículo, porque não era comum veículo circular por aquelas bandas.

O engenheiro-chefe gostava da maneira eficiente como João anotava todos os itens que seriam utilizados na realização destes ou daquele tipo de obra, estabelecendo a quantidade dos materiais e tipo dos serviços a serem feitos, registrando os dados relativos ao tempo de operações de máquinas, retroescavadeiras e tratores, como, também, o material de construção, tipo cimento, areia, água, enfim, tudo que deveria ser requisitado ao DER para ser conduzido até o local onde a operação seria realizada (recuperação de estradas, aberturas de novas estradas, pontilhões, pontes, etc.).

Enquanto o funcionário do DER, serviu-lhe como base para a profissão a qual se dedicaria por mais de 50 anos: a construção civil.

Desde que começou a construir casas e residenciais em Aracaju, João adotou em sistema muito bem planejado. Com a facilidade que tinha de projetar o orçamento para casa que iria construir, inicialmente por encomenda, a construção civil sempre foi para ele um jogo de xadrez que já começava com xeque-mate devidamente traçado no seu tabuleiro mental.

João era um construtor por devoção, por amor à arte. Além de ter transformado a cidade inteira numa autentica tábua de pirulitos, pontilhando ruas, áreas e bairros com construções da sua autoria - no caso das transversais “Estádio Lourival Batista”, a partir da própria rua do Cedro, lateral do “Instituto “Parreiras Horta”, implantou um estilo moderno de “bangalôs” determinando no levantamento de mais 300 casas, um novo estilo de habitação para as famílias classe média de Aracaju.

Depois de ter começado a construir casas e a sentir que iria dedicar sua vida a essa missão, João Alves, já me 1946, registrou firma individual para dar um cunho oficial a suas atividades. Em 1953, o volume de obras realizadas, merecedora da aceitação popular, levou a construir uma firma sob a dominação de Construtora Alves LTDA – CAL, empresa que se tornaria durante meio século a principal responsável pela urbanização de Aracaju.

O envolvimento de João Alves com o progresso social, em decorrência, de estimulo à economia, foi marcado por obras que perenizaram seu pioneirismo na construção civil.

Quando o Bispo de Aracaju, D. Fernando Gomes, promulgou uma campanha para retirar do centro de Aracaju núcleos e favelas que cresciam à medida que a cidade evoluía, o apoio do então governador Arnaldo Garcez foi direcionado para que João Alves participasse do grandioso programa de erradicação das favelas que contaminavam o centro da capital sergipana – dentre outros, a volumosa concentração de miséria e prostituição que, com todos seus malefícios, imperavam na região conhecida como “Ilha das Cobras”, nas proximidades da Praça Sta. Izabel, bairro Santo Antônio.
É daquela época a construção do Conjunto Residencial “Agamenon Magalhães” com mais de 200 casas populares, obediente a um modelo que atraiu as atenções de faixas da população mais abonada que, aos poucos, foi adquirindo da aqueles imóveis dos seus primitivos proprietários.

A visão expansionista do Construtor João Alves não se limitou a obras subvencionadas pelo poder público – como ocorreu com o financiamento através da COHAB para construir o Conjunto Habitacional “Castelo Branco”, com 381 unidades – pois, com recurso próprios ergueu Conjunto “Amintas Garcez”, este com 500 bangalôs e o Conjunto João Alves, com 700 casas, ou, ainda, a construção de várias centenas de casas em diferente ruas e bairros de Aracaju.

Qualquer espaço em qualquer lugar era o tamanho exato da febre de construção que engolfava João Alves. Começou partindo do zero, fazendo argamassa e fixando tijolos, multiplicando tempo para alcançar resultados, marcando presença com competência. Foi nesse ritmo incessante que construiu casas em quase todas as partes de Aracaju.

O Construtor João Alves era um apaixonado por automóveis e tinha sempre um “ponta de linha” em sua garagem. Era o seu “hobby”.
O carro de chapa “17-17” de propriedade do Construtor João Alves tornou-se uma verdadeira lenda em Aracaju. Mesmo quando adquiria um veículo novo, sempre conseguia manter a mesma chapa “17-17”. Sozinho ou sempre bem acompanhado, homem de muitos amores.

As incontáveis aventuras que lhe foram atribuídas, e sobre as quais nunca procurou dar explicações, levaram o seu nome a ser equiparado ao nível igual superior ao do incansável Don Juan, de lendários contos eróticos famosos em todo mundo.

Meu pai, João Alves Construtor pioneiro de uma obra transformadora de Aracaju dos primeiros anos em uma cidade moderna, interligando ruas e avenidas, em cuja extensão as centenas e centenas de casas que o empreendedorismo de sua visão única tornou possível.
Antes da implantação do Banco Nacional de Habitação pelo Governo Federal. O Construtor João Alves, com sua visão empreendedora extraordinária e humanista, criou um sistema de financiamento na sua Construtora, com centenas de clientes que tinham suas residências financiadas, por até 10 anos, com pagamentos mensais fixos. Nunca se ouviu falar de pressões por ele exercidas contra a qualquer um dos adquirentes de suas moradias, por inadimplência.

Costumava dizer: “mais vale o pior acordo do que a menor briga”... e, tudo se resolvia após uma breve conversa amigável.

Quando as enfermidades levaram o Construtor João Alves a buscar assistência médica, ele tomou conhecimento de situações aflitivas de doentes renais que não podiam arcar com os custos de operações de transplante que lhes salvariam a vida. Sigilosamente, ele assumiu esses encargos de vários pacientes, pessoas que sequer conhecia.
Aracaju, sob a ação progressista de sua visão empresarial especial e obstinada, antes bucólica, passou a ser uma cidade moderna, apta a se transformar numa das mais belas do Nordeste.

O construtor João Alves construiu casas, teve filhos e sonhos. Nunca se deixou abater por seus problemas, se deixava conduzir por seus sonhos. Seu mais precioso se concretizou em 1965 quando seu primogênito João Alves Filho conquistou o título acadêmico de Engenheiro Civil graduado pela Escola Politécnica da Universidade Federal da Bahia. Cristalizada estava uma das suas grandes metas.

Que mais posso desejar? Ter meu filho ao meu lado na Construtora Alves Ltda-CAL! E por alguns anos dividiram seu comando.

Duas características do seu pai atraíam o jovem João Alves Filho: sua atitude tranquila e seu olhar firme, independentemente da situação em que se encontrava. Ele sabia que as lições mais importantes e duradouras vêm das estradas difíceis. Seu pai não sabia falar difícil, mas tinha graduação na Universidade da Vida, era a única pessoa em sua vida que parecia ter sempre uma resposta.

Com esta certeza veio a resposta positiva e o apoio, em julho de 1970, mês de aniversário do pai e filho, nasce a HABITACIONAL CONSTRUÇÕES, um novo estilo na arte de morar.

E a saga da família Alves se pereniza.

Como dizia o Construtor João Alves, meu pai e ídolo, “quando descanso, carrego pedras”. Que assim seja, Deus lhe dê o descanso merecido!

Marlene Alves Calumby
Membro da Academia de Educação e de Letras de Sergipe.
*Publicado no Jornal Correio de Sergipe de 01.08.2020, Edição Especial

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