A BIOFÁBRICA DO SERGIPETEC

Manoel Moacir Costa Macêdo

Redação, 28 de Agosto , 2020

Não é novidade, o desempenho da produção agropecuária brasileira. O setor expressivo da economia nacional. Uma agricultura com mais ganhos em ciência e menos na incorporação de novas áreas de plantio. Safras recordes se sucedem a cada ano numa economia globalizada, competitiva e protecionista. A atual safra alcançou mais de 253 milhões de toneladas de grãos. Um país continental, com biomas, arranjos produtivos e sociabilidades variadas. Não existe uma, mas várias agriculturas. A pequena produção, a agricultura de sobrevivência, a agricultura orgânica e o agronegócio, entre outras. Todas com as suas demandas, histórias, sociologias e particularidades.

A fome dos brasileiros, não tem causa na carência da oferta de alimento, mas na incapacidade dos pobres em comprar comida. Somos um dos primeiros produtores e exportadores de alimentos do planeta e convivemos com a fome internamente. Triste registro: 35 milhões de brasileiros e brasileiras passam fome e 20 milhões se alimentam inadequadamente. O Brasil está de retorno ao mapa da fome. Contradição inaceitável.

Entre as transformações na pós-Covid-19, algumas trazem desafios específicos à produção agropecuária brasileira. Elas atingirão o mercado interno, externo, a produção, distribuição e consumo dos produtos agropecuários. Uma nova revolução agrícola está sendo delineada, a partir da chamada “saúde única”. O foco não está nos aumentos de produção e produtividade das lavouras e criações, mas na segurança alimentar, humana e animal. Comprometimento integrado entre o humano, o vegetal, o animal e o ambiental. No plano institucional, serão intensificadas a vigilância sanitária, a biossegurança na cadeia alimentar, a preservação dos habitats naturais, o mapeamento de zoonoses, a segurança das pessoas e a intervenção na inaceitável desigualdade. Afora o protagonismo dos consumidores conscientes.

O processo produtivo agropecuário inicia com o plantio de sementes e mudas. Delas dependerão o sucesso das etapas seguintes no manejo dos sistemas de produção. Pelos ajustes da inovação elas carregam a genética da produção, produtividade, resistência às pragas, doenças e ervas daninhas, adaptabilidade climática, sabores, nutrição, remédio, entre outras conquistas da ciência. O Estado de Sergipe, pela Organização Social Sergipe Parque Tecnológico - SERGIPETEC, pessoa jurídica de direito privado, sem fins lucrativos, entre outras ações do seu mandato institucional, propõe incluir a agricultura sergipana nessa revolução agrícola. Com limitada área geográfica, restrições de recursos naturais e o histórico atraso nordestino, resta a via da inovação tecnológica. Estratégia formulada no século passado pelo teórico do subdesenvolvimento Celso Furtado, celebrado no presente ano em memória, aos cem anos de seu nascimento. Para Mangabeira Unger, isto quer dizer, a “economia do conhecimento inclusiva”.

A “biofábrica de mudas”, projeto estruturado por quase uma década, alcança a etapa final na “seleção de empresas de base tecnológica no segmento de biotecnologia”. A proposta é acolher “empresas interessadas em produzir, aclimatar e comercializar mudas micro propagadas e certificadas de espécies agrícolas”. As metas são modestas, mas o fundamental é iniciar. “Uma longa viagem começa com um único passo”. Ao final de cinco anos, a meta é produzir no mínimo três milhões e quinhentas mil mudas “no viveiro, prontas para comercialização”.

O aguardado é a consolidação da biofábrica como uma estratégia inovadora à produção agropecuária sergipana. Inserir as “agriculturas sergipanas” nessa nova revolução. Exemplos abundam nos Estados vizinhos. Apesar das dificuldades e restrições, os merecidos aplausos e louvores aos servidores, dirigentes e conselheiros do SERGIPETEC. Que venha em breve a “biofábrica de inimigos naturais”.

Manoel Moacir Costa Macêdo é engenheiro agrônomo

 

 

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