Senador critica impunidade e estrutura deficitária do Estado em entrevista ao Flow Podcast
O senador Alessandro Vieira (MDB/SE), relator da CPI do Crime Organizado, afirmou nesta quarta-feira (22), em entrevista ao Flow Podcast, que o Brasil não combate efetivamente as organizações criminosas por ausência de decisão política, fragilidade institucional e por falhas na responsabilização de autoridades.
Em conversa com o apresentador Igor 3K e o jornalista Felipe Moura Brasil, o parlamentar abordou o relatório final que apresentou na comissão e os entraves encontrados durante as investigações.
Alessandro disse que a visão pública sobre o crime organizado está distorcida, o que dificulta a investigação das estruturas mais complexas. Segundo ele, parte da sociedade associa o crime organizado apenas às favelas e às camadas mais pobres, enquanto aceita comportamentos semelhantes quando praticados por pessoas de aparência mais privilegiada, e defendeu a necessidade de investigar também as redes financeiras e políticas que sustentam essas organizações.
O senador apontou a cultura de impunidade como um obstáculo central para o combate ao crime. Ele afirmou que a reação de ministros após a divulgação do relatório da CPI mostrou o alcance do trabalho da comissão, acrescentando que autoridades se viram próximas de serem responsabilizadas e que é preciso enfrentar o problema.
No relatório, Alessandro sugeriu o indiciamento dos ministros do STF Alexandre de Moraes, Dias Toffoli e Gilmar Mendes, além do procurador-geral da República, Paulo Gonet, por crimes de responsabilidade. O documento foi rejeitado pela comissão por seis votos a quatro. Mesmo com a rejeição, o senador disse que o objetivo do relatório foi evidenciar problemas estruturais e estimular o debate institucional.
Durante a entrevista, ele também classificou como tentativas de intimidação as mensagens e atitudes dirigidas às investigações, referindo-se a ações anteriores e a episódios ocorridos em sessões do Supremo Tribunal Federal.
Alessandro apresentou ainda dados sobre a insuficiência de pessoal e recursos em órgãos estratégicos do Estado: citou 22 mil cargos vagos na Receita Federal, falta de estrutura própria no Coaf e apenas 22% dos cargos preenchidos na Abin, defendendo que, sem orçamento e servidores, o país não combate o crime organizado de forma séria.

Como exemplo das dificuldades das apurações, mencionou investigações relacionadas ao Rio de Janeiro: segundo ele, a CPI tentou avançar no Estado sem sucesso e questionou como a sociedade espera soluções violentas diante de sinais de envolvimento político com facções criminosas, citando que a Polícia Federal teria identificado o presidente da Assembleia Legislativa como líder do braço político do Comando Vermelho.
O senador defendeu mudanças institucionais, inclusive revisões constitucionais sobre regras de ingresso e permanência no Supremo Tribunal Federal, como redução do tempo de mandato ou alteração da idade mínima de nomeação. Ressaltou ainda que sua atuação sobre o tema não é recente: disse ter protocolado pedidos de impeachment contra Alexandre de Moraes e Dias Toffoli em fevereiro de 2019.
Para Alessandro, o combate ao crime organizado passa pelo enfrentamento das estruturas de poder e de financiamento, e que a corrupção decorre de ambição e impunidade, não de alinhamento ideológico.
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