A disparada nos custos do trigo reduz a oferta interna e aperta despesas de moinhos e padarias. Moinhos já repassaram 10-15% do aumento; padarias seguram parte do custo, mas novos reajustes são previstos.
O aumento dos custos do trigo tem gerado impactos significativos em moinhos e padarias, que enfrentam uma menor oferta doméstica e incertezas em relação à qualidade da próxima safra. Enquanto os moinhos tentam equilibrar suas margens sem perder mercado, as padarias têm absorvido parte do aumento dos preços da farinha para evitar repasses maiores ao consumidor.
De acordo com a presidente do Sinditrigo-PR e CEO do Moinho Globo, os moinhos já transferiram, em média, entre 10% e 15% do aumento dos custos, mas ainda há a necessidade de novos reajustes. Para enfrentar a situação, algumas empresas estão reduzindo suas metas de volume e moagem, evitando a comercialização de trigo sem margem de lucro em um período de incertezas.
“Diminui a tua meta de volume. Foca em ter algum tipo de margem de contribuição e ganho, porque não adianta você queimar o trigo só para vender”, afirmou a presidente.
Relatos de alguns moinhos indicam dificuldades em repassar aumentos, como um reajuste de 5% no preço do trigo, que não encontrou aceitação entre os compradores. A líder do setor destaca que essa situação é a mais desafiadora em duas décadas.
“Esse repasse tinha que ter acontecido no primeiro semestre e, para algumas empresas, não aconteceu. E agora, que a água chegou no pescoço, está no desespero”, disse.
O cenário incerto é agravado pela diminuição da área plantada com trigo no Brasil e pelas condições climáticas no Rio Grande do Sul, além das preocupações com a qualidade do trigo argentino, principal fornecedor do Brasil. A falta de fixação de contratos entre produtores e cooperativas indica uma resistência em garantir produção antes da colheita.
A expectativa sobre a próxima safra reduz a disposição para formar estoques, e muitos moinhos já preveem que terão trigo suficiente apenas até o fim de agosto ou setembro. Essa limitação afeta diretamente a produção de diferentes tipos de farinha, especialmente para aplicações que exigem maior qualidade, como a panificação.
No setor de panificação, as padarias também enfrentam dificuldades em repassar o aumento da farinha. O presidente da Abip afirma que o preço do trigo subiu entre 12% e 15% neste ano, resultando em reajustes de até 15% nos produtos, embora a capacidade de repasse seja limitada pela sensibilidade do consumidor.
O pão francês, um dos produtos mais afetados, tem a farinha como principal ingrediente, representando cerca de 70% da receita. Com a necessidade de manter a clientela, as padarias buscam limitar o aumento do preço do pão francês a cerca de 4%, enquanto outros produtos podem sofrer reajustes maiores.
“Infelizmente, temos tido muitos aumentos no preço do trigo, que a padaria não consegue repassar integralmente. Essa margem já vem caindo há alguns anos dentro das padarias”, concluiu o presidente da Abip.
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