Auxiliares de Lula recomendam iniciar cortes já no começo de um eventual quarto mandato, aproveitando o capital político para conter despesas. A proposta provoca forte resistência interna e reacende o debate sobre a credibilidade fiscal do governo.
Auxiliares do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) recomendam que ele inicie cortes de gastos logo no começo de um eventual quarto mandato, caso seja reeleito. A proposta, no entanto, gera profunda divisão dentro do PT e levanta dúvidas sobre a credibilidade fiscal do governo.
Segundo interlocutores, a ideia é usar o capital político do início do novo mandato para frear as despesas, evitando antecipar medidas impopulares em plena campanha eleitoral. A estratégia contrasta com o ocorrido em 2023, quando a chamada PEC da Transição permitiu forte crescimento dos gastos.
A recomposição das contas públicas, de acordo com os interlocutores, precisaria mirar a estabilização da relação dívida-PIB até 2030, de forma gradual.
Já o economista Sérgio Gabrielli, coordenador da campanha de Lula, afirma que o equilíbrio fiscal não é um fim em si mesmo. Para ele, cortes em salários e benefícios seriam como “enxugar gelo” diante da alta taxa de juros, e os pisos constitucionais de saúde e educação representam conquistas do movimento social.
“Esse debate é muito mais disputa de poder, porque o pessoal está vendo ali a seara econômica aberta”, afirmou Leonardo Barreto, sócio da consultoria Think Policy.
Ele também destacou que, em evento de partidos de esquerda na Espanha, Lula teria dito que o grande erro da esquerda foi “ter se rendido ao pacote ortodoxo do consenso de Washington”, ou seja, ter adotado a responsabilidade fiscal como agenda. “Isso me levantou dois sustos. O primeiro é que ele não reconhece a importância que a agenda fiscal teve no início do período dele, lá em 2002”, disse Barreto.
O sócio da Think Policy observou ainda que uma ala da campanha defende exceções ao arcabouço fiscal para áreas como mobilidade urbana e ensino em tempo integral. “As exceções viraram regra. E aí é natural que haja muita dúvida sobre qualquer promessa de ajuste fiscal”, concluiu.
Assessores próximos de Lula sugerem evitar o caminho trilhado pelo ex-ministro da Fazenda Joaquim Levy, em 2015, quando um choque de medidas de ajuste fiscal sofreu fortes críticas de alas do governo e da esquerda. Levy acabou deixando o cargo com menos de um ano de atuação.
Barreto lembrou que, à época, a principal oposição ao pacote de Levy era o próprio PT, partido do governo. “Quando os outros partidos da coalizão olharam e disseram que, se o PT não apoia esse pacote, não sou eu que vou apoiar”, relatou. Para ele, ali estava “o coração do impeachment”.
Analistas apontam que a divisão entre uma ala favorável a um ajuste mais duro e outra que defende um ajuste mais leve sempre existiu no partido. Avalia-se ainda que o próximo governo, seja ele qual for, estará fadado a enfrentar o chamado “duplo 100%”: uma relação dívida-PIB de 100% e 100% do orçamento tomado por despesas obrigatórias até 2030 — projeção sustentada pela instituição fiscal independente e pela própria Secretaria do Tesouro Nacional.
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