Nos EUA, Bloom Energy instala células de combustível em data centers em ~90 dias, sem depender da rede. No Brasil, a carência de estruturas para usar gás natural impede essa solução e freia a corrida pela IA.
Nesta semana, a Bloom Energy está programada para instalar mais uma célula de combustível em um data center no norte da Virgínia, nos Estados Unidos. O processo não requer obras extensas, subestações ou a dependência de concessionárias. A única necessidade é de gás barato e cerca de noventa dias de trabalho. Enquanto isso, o data center começa a operar, enquanto concorrentes aguardam na fila pela conexão à rede elétrica.
Esse cenário é comum nos Estados Unidos, mas é inexistente no Brasil. A falta de uma infraestrutura que possibilite o uso eficiente do gás natural é um dos principais fatores que impede a criação de um ecossistema semelhante ao americano. O gás nos EUA é barato devido à combinação de geologia favorável e regulação eficiente, que resultaram na abundância do gás de xisto e na formação de um mercado competitivo.
A corrida pela inteligência artificial (IA) é, em essência, uma corrida por energia. Em 2025, os investimentos de gigantes como Microsoft, Google, Amazon e Meta em data centers superaram os investimentos cumulativos da indústria de petróleo e gás. No Brasil, a situação é distinta, pois a necessidade de energia firme, disponível 24 horas por dia, é um desafio que ainda precisa ser superado.
Embora o Brasil tenha uma produção crescente de gás do pré-sal, o país ainda o precifica como se fosse uma importação. O gargalo não está na produção, mas nas etapas subsequentes. A Nova Lei do Gás de 2021 foi um passo positivo ao abrir o transporte, mas o processamento do gás continua concentrado, com a Petrobras controlando cerca de 65% do mercado, muito acima do patamar considerado crítico pela ANP.
Os dados da ANP revelam um paradoxo alarmante: em junho de 2026, o produtor recebia apenas 2,86 dólares por MMBtu, enquanto o consumidor industrial pagava 20,14 dólares. Isso significa que a infraestrutura captura uma parcela significativa do valor, limitando a eficiência do mercado. O Brasil, então, importa gás para atender à demanda interna, mesmo com a capacidade de produção abundante.
Um exemplo disso é a tentativa da Bloom Energy de entrar no Brasil há mais de doze anos, que não se concretizou devido ao custo elevado do gás. O Macaé Hub, proposto para processar 25 milhões de metros cúbicos por dia, poderia resolver parte desse problema, mas a falta de competição impede a sua viabilidade.
O regime atual, que atrai data centers ao Brasil, exige o uso exclusivo de energia renovável ou limpa, excluindo o gás da equação. Essa abordagem ignora o papel crucial do gás na corrida pela IA, que está sendo impulsionada pela energia nos Estados Unidos.
Para mudar esse cenário, é essencial que o Brasil abra o acesso ao processamento do gás do pré-sal e implemente um gas release, permitindo que a Petrobras leiloasse parte de sua produção. Além disso, a transparência nos preços do gás é fundamental para estimular a competição e a eficiência no mercado.
A liberação do fraturamento hidráulico também é uma questão a ser considerada, tendo em vista que o Brasil possui grandes reservas de gás de folhelho, mas ainda não permite testes. A revolução do gás de xisto nos EUA foi impulsionada pela liberdade dos produtores em explorar novas técnicas.
A janela de oportunidade para o Brasil se posicionar na corrida global de data centers é real, especialmente considerando a previsão de um pipeline de dois trilhões de dólares na próxima década. O Brasil, com sua matriz energética renovável e reservas significativas de gás, tem o potencial de se tornar um player importante nesta nova era digital.
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