Anorexia, bulimia e compulsão alimentar podem comprometer a saúde física e emocional e demandam acolhimento, atenção e acompanhamento especializado
A relação com a alimentação pode assumir diferentes formas. Para algumas pessoas, o ato de comer deixa de representar apenas uma necessidade ou uma experiência prazerosa e passa a ser acompanhado por culpa, medo, preocupação constante com o peso ou sensação de descontrole. Muitas vezes compreendidos de maneira equivocada como falta de disciplina ou de força de vontade, os transtornos alimentares são condições de saúde que podem afetar diversas áreas da vida.
A dimensão desse problema também é preocupante entre crianças e adolescentes. Uma revisão sistemática que reuniu 32 pesquisas realizadas em 16 países encontrou uma prevalência de 22,4% de possíveis transtornos alimentares entre os participantes avaliados. Como o levantamento utilizou ferramentas de triagem, esse percentual não representa diagnósticos confirmados, mas reforça a necessidade de reconhecer precocemente comportamentos que podem indicar risco.
Em escala mundial, a Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que aproximadamente 70 milhões de pessoas vivam com algum tipo de transtorno alimentar. No Brasil, uma estimativa publicada pela Biblioteca Virtual em Saúde do Ministério da Saúde indica que cerca de 5% da população, o equivalente a 11 milhões de pessoas, apresentam algum transtorno alimentar.
Nesse contexto, identificar mudanças de comportamento e procurar orientação especializada pode ser determinante para a recuperação. A médica cirurgiã e professora da Universidade Tiradentes (Unit), Sylvia Gurgel, explica que os transtornos alimentares provocam alterações persistentes na maneira como a pessoa se relaciona com a alimentação, o peso e a própria imagem, com possíveis repercussões físicas e emocionais. “Os principais são anorexia nervosa, bulimia nervosa e transtorno de compulsão alimentar”, explica.
Quando existe sofrimento
Mais do que observar simplesmente o tipo ou a quantidade de alimento consumido, é necessário prestar atenção à forma como a pessoa se relaciona com a comida e com o próprio corpo. De acordo com Sylvia, sinais de alerta podem surgir quando a alimentação passa a despertar sofrimento, culpa, medo ou sensação de descontrole, ou quando questões relacionadas ao peso, à aparência e à comida ocupam uma parcela excessiva do cotidiano.
Entre os comportamentos que podem estar relacionados a um transtorno estão a restrição alimentar intensa, episódios de compulsão, indução de vômitos, utilização inadequada de laxantes ou diuréticos e realização excessiva de exercícios físicos. Também merecem atenção a preocupação constante com peso e calorias, o hábito de esconder-se para comer e a recusa em realizar refeições junto de outras pessoas.
“Não é preciso esperar que a situação se agrave para buscar ajuda. Quando a relação com a alimentação ou com o próprio corpo provoca sofrimento, culpa, sensação de perda de controle ou interfere na rotina, já há uma razão importante para procurar um profissional de saúde”, orienta a médica.
Diversos fatores envolvidos
Os transtornos alimentares geralmente não têm uma única origem. Segundo Sylvia, são condições multifatoriais, que podem envolver aspectos biológicos, psicológicos, familiares, sociais e culturais. Pressões relacionadas à aparência, dietas extremamente restritivas, baixa autoestima e determinadas vivências emocionais estão entre os fatores que podem favorecer o desenvolvimento desses transtornos. Por isso, a compreensão do problema precisa considerar muito mais do que apenas os hábitos alimentares.
“A identificação precoce é especialmente importante porque as alterações nos pensamentos e comportamentos podem aparecer antes das complicações físicas. Perceber mudanças significativas na relação com a comida, o peso e a imagem corporal permite buscar assistência antes que o quadro se agrave”, destaca.
Consequências para o organismo
Embora sejam frequentemente associados à alimentação e à percepção da própria imagem, os transtornos alimentares podem afetar diferentes sistemas do corpo. Entre as possíveis consequências estão desnutrição, alterações hormonais e metabólicas, desequilíbrios hidroeletrolíticos e problemas cardiovasculares.
“No sistema digestivo, as manifestações também podem ser diversas. Refluxo, náuseas, constipação, distensão abdominal e alterações da motilidade gastrointestinal podem ocorrer. Dependendo dos comportamentos associados ao transtorno, também podem surgir lesões no esôfago e alterações dentárias”, elenca a médica.
A diversidade de impactos também ajuda a explicar por que o tratamento normalmente requer a participação de diferentes profissionais. Médicos, nutricionistas e profissionais de saúde mental podem trabalhar de maneira conjunta, com a inclusão de outras especialidades conforme as necessidades apresentadas por cada paciente. “A abordagem interdisciplinar permite cuidar simultaneamente dos aspectos físicos, nutricionais e psicológicos envolvidos na doença, tornando o tratamento mais abrangente e individualizado”, conta.
Importância da rede de apoio
Familiares e amigos também podem contribuir para perceber sinais de alerta e incentivar a busca por atendimento. Alterações repentinas nos hábitos alimentares, afastamento durante as refeições, preocupação exagerada com o peso, comportamentos compensatórios e mudanças expressivas de peso ou humor são situações que devem ser observadas.
Entretanto, a forma de abordar essa preocupação é fundamental. Cobranças, críticas ao corpo e julgamentos podem intensificar o sofrimento de uma pessoa que já enfrenta dificuldades em sua relação com a alimentação. “Essa abordagem deve ser acolhedora, sem julgamentos ou cobranças, incentivando a procura por ajuda profissional”, orienta Sylvia.
A recuperação é possível
O tratamento dos transtornos alimentares pode ser longo e requerer acompanhamento contínuo, mas essas condições podem ser tratadas e a recuperação é possível. A identificação e a intervenção realizadas de maneira precoce aumentam as possibilidades de evitar que os impactos físicos e emocionais se agravem.
“Por isso, reconhecer que existe um problema não deve ser encarado como sinal de fraqueza, mas como um passo importante para o cuidado. A relação com a comida e com o próprio corpo não precisa ser marcada permanentemente pelo sofrimento. Buscar ajuda profissional é, muitas vezes, o primeiro movimento para reconstruir essa relação e a recuperação não precisa ser uma jornada solitária”, finaliza.
Por: Laís Marques
Fonte: Asscom Unit
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