A banda brasiliense usa 'Sob a Pele' — 15 faixas — para se reconstruir sem apagar sua história. O álbum amplia o stoner com blues, slide e momentos íntimos, convertendo a quantidade de faixas num exercício de composição.
A Malice encontrou em “Sob a Pele” um caminho para se reconstruir sem apagar o que já havia sido construído. No álbum de 15 faixas, a banda brasiliense amplia as bases do stoner rock que marcaram sua fase inicial e abre espaço para o blues, o uso de slide, momentos mais íntimos e uma escrita atravessada por vulnerabilidade, desejo e recomeço.
Mais do que um disco longo, “Sob a Pele” funciona como registro de uma banda testando limites e ampliando referências. A quantidade de faixas fazia parte do projeto desde o início, mas acabou se convertendo também em um exercício de composição que estimulou a criação por volume e variedade.
“Ter que criar 15 músicas acabou sendo um exercício muito bom. Levou nosso processo para lugares em que talvez a gente não chegasse sem essa provocação”.
A fala acima é atribuída a Bia Nobre, que divide a direção criativa da Malice com Diego Castro e vem assumindo papel crescente tanto na composição quanto na performance.
O espírito de liberdade aparece também na sonoridade. Se o primeiro momento da Malice estava mais diretamente ligado ao stoner rock, em “Sob a Pele” as referências ao blues e ao slide ficam mais explícitas, sobretudo a partir da entrada de Diego na condução criativa do projeto. Essa mudança pode ser percebida em faixas como “The Devil That You Know”, com atmosfera retrô e guitarra em destaque, e em “Let It Burn”, que traz Cris Botareli (do Far From Alaska e do Ego Kill Talent) na segunda voz e no lap steel.
O disco também deixa espaço para canções que rompem com a lógica do peso contínuo: “Uma Canção” se sustenta apenas em piano e voz; “Love Like This” toma o formato de balada; “Seu Sangue É o Mar” ganha contornos de canto de marinheiro; e “Me Faz Queimar” aproxima a banda de refrões mais pop e de pontes com referências country.
“Compartilhar isso com uma pessoa que você conhece desde que nasceu muda completamente a forma como você se vulnerabiliza durante a criação”.
Essa reflexão, atribuída a Bia Nobre, sintetiza a relação artística entre ela e Diego Castro, que se conhecem desde a infância e hoje dividem composição e direção artística da Malice. O novo grau de autonomia também se traduz no uso da guitarra: Bia passou a utilizar o instrumento como ferramenta de composição, transformando ideias em arranjos antes mesmo de apresentá-las à banda.
Produzido, mixado e masterizado por Ricardo Ponte, “Sob a Pele” tem Bia Nobre nos vocais e guitarras, Diego Castro nas guitarras e slide, Vinícius Arbués no baixo e Marcelo Melo na bateria. No conjunto, o álbum funciona menos como tentativa de rotular a Malice e mais como documento do momento em que o grupo optou por sair de limites prévios, resultando numa identidade mais aberta, plural e própria.
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