Lançada em 1981, a canção virou o maior sucesso de Ney Matogrosso. Na série 'Por Trás da Canção', o compositor Antônio Barros relata como um forró inspirado em cena de O Bem-Amado foi parar na voz do cantor.
Lançada em 1981, “Homem com H” tornou-se o maior sucesso da carreira de Ney Matogrosso e deu nome, anos depois, à sua cinebiografia. A trajetória da canção foi reconstituída na série “Por Trás da Canção”, em que Ney, o compositor Antônio Barros (1930-2025) e o produtor Marco Mazzola lembraram como um forró acabou na voz do cantor.
A origem da música foi uma cena da novela O Bem-Amado, segundo o compositor Antônio Barros. Na trama, o prefeito Odorico Paraguaçu demonstra medo do cangaceiro Zé Cadiabo e é questionado pelo secretário Dirceu Borboleta; a resposta do coronel virou o ponto de partida para a letra.
“Peguei o violão, e foi assim que nasceu”
A fita da canção chegou às mãos de Mazzola, que procurava um sucesso para Ney. Para o produtor, o atrativo estava no contraste entre uma letra de afirmação de masculinidade e a figura ambígua que Ney projetara desde o tempo do Secos & Molhados.
“Eu sentia que com o personagem Ney Matogrosso a gente ainda não tinha feito uma coisa que pudesse balançar o Brasil”
Inicialmente, Ney estranhou a proposta. Ele disse que nunca tinha cantado um forró e recusou a ideia.
“Eu estranhei, porque eu nunca tinha cantado um forró. Aí eu disse: ‘Não vou cantar isso não'”
O produtor insistiu para pelo menos preparar a base, oferecendo a gravação somente se Ney não aprovasse o resultado. Ney concordou com uma condição: a faixa só entraria no disco se ele aprovasse ao final.
“Ney, pela nossa amizade, acho que ainda não errei a mão. Deixa eu fazer pelo menos a base. Se você não gostar, a gente não grava. Quem vai para o palco é você”
“Achei que fosse ficar uma coisa meio eu me defendendo. Mas eu não tenho que me defender de nada”
O empurrão definitivo veio de Gonzaguinha, colega da gravadora, que passou pelo estúdio e apontou uma leitura diferente para a canção na voz de Ney.
“Ele disse: ‘Ney, você não está percebendo que você é a única pessoa que pode cantar isso e ela ter uma graça diferente? Qualquer outra pessoa que cante, é só isso. Com você, é outra conotação'”
Para o arranjo, Mazzola convidou o sanfoneiro Oswaldinho do Acordeon, conhecido pela pegada moderna, e manteve em segredo o intérprete até o dia da gravação. A gravadora colocou “Homem com H” como última faixa do lado B do disco, distante da música de trabalho, mas as rádios escolheram a canção e o LP se tornou o mais vendido da carreira de Ney.
“Em uma semana era um ritmo nacional. Todo mundo tinha o disco do Ney debaixo do braço. Era forrozeiro, era bossa-novista”
Ney afirmou que só tinha experimentado tamanha popularidade com o Secos & Molhados. O produtor lembrou que crianças passaram a cantar a música nas escolas e alguns pais chegaram a tentar proibir a imitação, o que provocou risos entre os envolvidos.
“Eu morria de rir”
Antônio Barros contou que só descobriu a gravação por acaso, na Paraíba, quando um rapaz perguntou se ele já tinha ouvido Ney cantando sua música. O encontro no estúdio entre compositor e intérprete deu início a uma amizade.
“Eu estava tomando banho e quase caí debaixo do chuveiro. Era o homem que eu queria que gravasse a minha música”
Sobre a letra, Barros definiu-a como “um grande deboche”: o narrador afirma sua masculinidade com convicção e, ao final, depende da palavra de outra pessoa para confirmá-la. Ney concordou que cantar aquela música era transgressor na época, porque trazia uma afirmação e ao mesmo tempo um deboche, sem necessidade de submeter-se a uma definição sobre ser ou não ser homem.
“Cantar isso era transgressor naquele momento. As pessoas achavam que eu não era homem, e ele me dá uma música em que eu afirmo que sou”
Antônio Barros sintetizou o encontro entre canção e intérprete afirmando que, se outra pessoa tivesse gravado, talvez o efeito não tivesse acontecido: era Ney quem precisava dar voz àquela música.
“Eu acho que se outra pessoa tivesse gravado, não teria acontecido. Aconteceu porque era ele que tinha que acontecer com essa música”
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