Na madrugada de sábado (20), celulares emitiram alarme com mensagem falsa da Defesa Civil. O órgão negou o alerta, retirou a plataforma do ar e acionou a Polícia Federal.
Na madrugada do último sábado (20), milhões de brasileiros foram surpreendidos por um alarme sonoro em seus celulares, acompanhado de uma mensagem falsa atribuída à Defesa Civil. A palavra exibida era ‘misantropia’ — que significa ódio à humanidade —, grafada de forma incorreta em alguns casos como ‘misantropi4’, caracterizando um alerta extremo indevido.
A Defesa Civil precisou emitir uma nota tranquilizando a população, retirou a plataforma do ar e apontou um provável ataque hacker como causa do ocorrido. O Ministério da Integração e Desenvolvimento Regional acionou a Polícia Federal para investigar o episódio.
Arthur Igreja, especialista em tecnologia e inovação, analisou o caso e apontou as principais hipóteses para o ocorrido.
“Nós temos a hipótese de um ataque mais estruturado, mais elaborado, ou o acesso a um computador comprometido da própria Defesa Civil, e trabalha-se também com a hipótese de que alguém conseguiu as credenciais de acesso”, afirmou.
Segundo ele, isso equivale à obtenção de usuário e senha, o que pode ocorrer por vazamento, engenharia social ou comprometimento de um dispositivo de algum funcionário.
Arthur destacou que o episódio é extremamente preocupante, pois se trata de um sistema de alta relevância social.
“É um sistema importante, extremamente relevante do ponto de vista social, que depende de confiança e que teve essa confiança agora quebrada com a população”, declarou.
Para ele, o fato de o sistema ter sido retirado do ar não é motivo de tranquilidade, pois evidencia uma fragilidade significativa que foi exposta publicamente.
O especialista explicou que o sistema utilizado é do tipo broadcasting, desenvolvido em 2023, no qual a mensagem da Defesa Civil é enviada às operadoras de telefonia, que a distribuem aos aparelhos com altíssima prioridade.
“Quando essa mensagem chega no smartphone, ela tem total prioridade. É por isso que a tela fica, em muitos casos, bloqueada, e tem esse som extremamente estridente para chamar atenção”, explicou.
O alerta se sobrepõe inclusive ao modo silencioso ou ‘não perturbe’ do aparelho.
Sobre a razão pela qual algumas localidades receberam o alerta e outras não, Arthur observou que esse tipo de envio normalmente possui filtros de seleção geográfica.
“Nós não sabemos se quem enviou fez essa seleção ou não fez essa seleção”, disse.
O especialista também chamou atenção para o fato de diferentes regiões terem recebido mensagens distintas em horários variados — com relatos de alertas chegando por volta das 22h e outros depois da 1h30 da madrugada —, o que indica que o acesso indevido ao sistema foi mantido por várias horas.
Arthur apontou que a diferença de horários entre os envios evidencia também uma demora na reação das autoridades responsáveis.
“Tivemos ali não só a fragilidade técnica, mas também a letargia na resposta”, afirmou.
Para ele, a partir do momento em que a mensagem indevida foi disparada, o sistema deveria ter sido retirado do ar imediatamente.
Sobre a investigação conduzida pela Polícia Federal, o especialista explicou que ela seguirá um processo de identificação do tipo de acesso realizado, dos responsáveis e dos métodos utilizados, em uma etapa conhecida como investigação forense.
“A expectativa é que tenha uma probabilidade grande de, com alguma velocidade, conseguir encontrar e identificar não só o que aconteceu, mas quem fez isso”, disse.
O episódio deve servir de lição para todas as plataformas governamentais. Segundo Arthur, caso o acesso tenha sido feito apenas com usuário e senha, sem autenticação de dois fatores, isso evidencia uma fragilidade grave.
“Não tem nenhuma validação por SMS, por gerenciador de senha, por um e-mail secundário, por coisas que são tão banais. Isso evidencia o quanto que é fraco o sistema”, afirmou.
Para o especialista, o incidente compromete diretamente a credibilidade do sistema de alertas.
“Se chegar um novo alerta nos próximos dias, as pessoas vão ficar titubeando: será que é um alerta sério ou não?”, questionou.
Ele concluiu que o episódio beira o descuido e que, embora possa parecer pequeno para alguns, trata-se de um sistema criado para situações de emergência e proteção das pessoas.
“Tomara que sirva como um grande aprendizado”, finalizou.
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