Uma nova opção de tratamento chegou para jovens entre 10 e 17 anos com diabetes tipo 2. A tirzepatida, do Mounjaro, é o primeiro agonista duplo GIP e GLP-1 aprovado no Brasil para essa faixa etária.
A utilização de medicamentos agonistas do GLP-1, conhecidos como “canetas emagrecedoras”, tem gerado interesse crescente entre diversos públicos, incluindo adolescentes. Recentemente, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) autorizou o uso da tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro, para controle do diabetes tipo 2 em pacientes entre 10 e 17 anos. Esta é a primeira medicação da classe dos agonistas duplos dos receptores de GIP e GLP-1 liberada no Brasil para crianças e adolescentes.
Os hormônios intestinais GIP e GLP-1 desempenham papéis importantes no controle da glicose no sangue e na produção de insulina. A tirzepatida, ao ativar simultaneamente esses receptores, contribui para a melhora dos índices glicêmicos e a redução da resistência à insulina. Essa autorização surge em um contexto preocupante: o avanço do diabetes tipo 2 entre os jovens, que acompanha o aumento da obesidade infantil nas últimas décadas.
Dados do Sisvan (Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional) mostram que, em 2009, havia 74.972 adolescentes com obesidade no Brasil. Em 2025, esse número saltou para 986.058, representando um aumento de 1215%. Um estudo de 2019, publicado na revista Pediatric Diabetes, indicou que aproximadamente 213 mil adolescentes no Brasil viviam com diabetes tipo 2, além de 1,4 milhão com pré-diabetes. Fatores como sedentarismo, alimentação inadequada e questões genéticas contribuem para essa realidade.
A autorização da Anvisa foi fundamentada em estudos clínicos que avaliaram a eficácia e segurança da tirzepatida em adolescentes. Um dos principais estudos, publicado em 2025 na revista científica The Lancet, acompanhou 99 adolescentes com média de 14,7 anos de idade, que já utilizavam insulina e/ou metformina antes do início da pesquisa. Os participantes foram divididos em três grupos: dois receberam diferentes dosagens de tirzepatida e um tomou placebo. Após 33 semanas, os pesquisadores observaram melhorias significativas nos níveis de glicemia e uma redução no índice de massa corporal (IMC) entre os adolescentes tratados com a medicação.
“Trata-se de uma medicação revolucionária para crianças e adolescentes com essa doença, público que apresenta complicações de forma mais intensa e precoce. Por isso, é tão importante um tratamento eficiente e prematuro”, afirmou a endocrinologista Maria Edna de Melo, da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia.
Apesar dos resultados positivos, a médica ressalta que, ao contrário do que ocorre com os adultos, o uso da tirzepatida não é indicado para emagrecimento em adolescentes, pois não existem estudos que comprovem sua eficácia para este propósito nessa faixa etária. Os efeitos colaterais observados em pacientes pediátricos são semelhantes aos enfrentados por adultos, com os mais comuns sendo sintomas gastrointestinais, como náuseas e diarreia. Outros riscos, como a hipoglicemia, também devem ser monitorados de perto.
Além disso, a tirzepatida pode afetar a eficácia de contraceptivos orais, exigindo que adolescentes sejam orientadas a utilizar métodos contraceptivos alternativos. O uso do medicamento é contraindicado para indivíduos com alergia à tirzepatida ou a qualquer componente da fórmula, além de pessoas com histórico de carcinoma medular de tireoide ou neoplasia endócrina múltipla tipo 2.
O tratamento de diabetes tipo 2 em crianças e adolescentes requer um acompanhamento cuidadoso, uma vez que fatores como fase de crescimento e desenvolvimento hormonal tornam a situação mais delicada. “O tratamento deve ser individualizado, escalonando a aplicação de acordo com a tolerabilidade e necessidade do paciente”, conclui a endocrinologista.
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