No Palco Sunset, chuva torrencial não impediu Dona Guiomar, mãe de Charles e Chaene, de assistir à banda no fosso. Ao tocar 'Tradução', a apresentação ganhou mais emoção com a família presente.
O Black Pantera protagonizou um dos momentos mais emotivos do Rock in Rio no dia 5 de setembro: em meio à chuva torrencial que caiu durante a apresentação no Palco Sunset, as câmeras flagraram Dona Guiomar, mãe dos irmãos Charles e Chaene da Gama, no fosso com capa de chuva, acompanhando a banda enquanto eles tocavam “Tradução”. A música, inspirada na história de Guiomar, ganhou nova carga afetiva com a presença de familiares na plateia.
O trio se apresentou no Palco Sunset no dia 5 de setembro, em encontro com a Nervosa, marcando a terceira passagem da banda pelo festival. Além de Dona Guiomar, estavam presentes o pai dos irmãos, filhos, esposas e Dona Elvira, mãe do baterista Rodrigo Pancho.
“Minha mãe está aqui, meu pai, nossos filhos, as esposas, está todo mundo. Ela tinha dois sonhos: viajar de avião e voltar para a praia. A gente conseguiu proporcionar isso. Na primeira viagem, ela morreu de medo, mas deu tudo certo.”
O encontro entre público, família e banda reforçou o caráter pessoal da apresentação. Lançada em 2024 no álbum Perpétuo, “Tradução” nasceu como uma composição de Chaene sobre a rotina de trabalho de sua mãe e acabou ampliando o foco para histórias de mães trabalhadoras e os efeitos do racismo estrutural.
“‘Tradução’ é uma música que fiz nesse contexto de trabalho, da minha mãe ter hora para chegar e não ter hora para sair. E ela ganhou o mundo. Você vê os comentários no YouTube e tem gente contando a vida das próprias mães: ‘Minha mãe se foi, mas ouvi essa música e me lembrei dela’, ‘comecei a seguir vocês por causa dessa música’. É uma música que transcendeu.”
No palco, o momento de “Tradução” também ganhou dimensão política: antes da faixa, a banda defendeu o fim da escala 6×1. O repertório do show ainda incluiu “Hórus”, “Padrão É o Caralho” e “Fogo nos Racistas”. Com a entrada da Nervosa, Charles pediu a formação de uma roda punk composta por mulheres, e as duas bandas fizeram uma homenagem a Rita Lee com “Obrigado, Não”.
O espetáculo no festival ocorreu duas semanas após o lançamento de Continental, quinto álbum de estúdio do Black Pantera, disponibilizado em 21 de agosto pela gravadora Deck. O disco tem 13 faixas e reúne participações de Duquesa em “Serotonina”, Sandra Sá em “Quando Canto”, Derrick Green, do Sepultura, em “Obsoleto”, e Chico César em “Banzo”. A faixa-título também traz uma gravação do geógrafo Milton Santos.
Os músicos afirmaram que a variedade de convidados não representa ruptura na trajetória do grupo, mas sim uma postura presente desde os primeiros trabalhos. Em entrevista, Charles ressaltou a postura da banda diante de experimentações sonoras:
“O Black Pantera tem cinco álbuns e nunca teve medo de arriscar. A gente nunca foi uma banda presa a rótulos. Tem um riff aqui que não é tão metal? Vamos fazer o riff. A gente consegue extrair alguma coisa dali.”
As participações no álbum, segundo os músicos, foram pensadas a partir das próprias canções, não como busca por nomes para representar gêneros. Sobre “Quando Canto”, Chaene disse que a escolha recaiu sobre uma voz preta, feminina e ancestral, e que Sandra Sá topou colaborar após ouvir a música. Já Duquesa, cuja referência aparecia na letra de “Serotonina”, acrescentou sua identidade quando recebeu a faixa.
“Quando a gente ouviu ‘Quando Canto’, pensou em uma voz preta, feminina, ancestral. Sandra Sá. Ela ouviu uma vez e quis gravar.”
Sobre a presença de Derrick Green no disco, Pancho destacou a importância pessoal do convidado:
“O Derrick é o Derrick, né? É herói nosso desde moleque.”
O show no Palco Sunset deixou um registro de afetividade e engajamento: além da sonoridade e das colaborações do novo álbum, a relação com o público e a visibilidade às histórias que inspiraram canções como “Tradução” foram pontos centrais da apresentação.
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