A MORTE É UMA FESTA

Carlos Braz, 24 de Abril, 2021 - Atualizado em 25 de Abril, 2021

A MORTE É UMA FESTA 

Por Carlos Braz 

A importância dos rituais fúnebres se faz presente em todas as culturas desde a pré-história, independente de crenças e etnias. Neles encontramos semelhanças e diferenças na mesma medida, tradições que atravessam os séculos, desafiando a modernidade e adaptadas a um novo tempo.

Em algumas culturas a morte é uma festa com música e bebedeiras em homenageiam o defunto. Em outros é a dor compartilhada pelos parentes e amigos.

No México a morte é compreendida como um alivio ante a fogueira de vaidades e frivolidades desimportantes que adotamos enquanto vivos. Nesse contexto, o Dia de Finados é comemorado com desfile de fantasias, shows artísticos pelas ruas, comida e tequila à vontade. A fuzarca é reconhecida como patrimônio cultural atraindo milhares de turistas.

Na Irlanda, a família convida os amigos mais próximos para o barzinho preferido do finado, onde todos bebem, comem, e relembram fatos que compartilharam juntos.

Em Gana, país situado na África, a morte é considerada o início de uma nova vida. O falecido é homenageado em um ritual onde a alegria se faz presente, sendo enterrado em um caixão colorido feito especialmente para a ocasião, decorado com suas preferencias, como colares, instrumentos musicais e garrafas de bebida.

Como vimos, as formas de abordar a hora derradeira são diferenciadas. Toda cultura tem seu jeito de lidar com a perda de um ente querido.

No Brasil, devido a colonização portuguesa que nos deixou como herança um catolicismo onipresente em todos os âmbitos da sociedade, era comum enterros ocorridos no interior ou nos adros das igrejas, sem distinção de classes e as   manifestações relacionadas à morte são repletas de simbolismos e carregadas de tristeza e orações, que clamam por um bom lugar na morada eterna para o falecido.

Porém há lugar para lendas e personagens característicos da cultura brasileira, principalmente na região nordeste, palco de carpideiras, mulheres pagas para chorar nos velórios, rasga-mortalhas e assombrações de todo tipo.

Na literatura nacional algumas obras envolvendo defuntos tornaram-se famosas. É o caso de Dona Flor e seus dois maridos, de Jorge Amado e Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, entre outros menos conhecidos.

Porém existem fatos reais e que emolduram a história dos mortos e dos cemitérios no Brasil. Um deles ocorreu na cidade de Salvador no longínquo 25 de outubro de 1836.

O caso ficou conhecido como “A cemiterada”, uma manifestação popular que destruiu um cemitério construído pela iniciativa privada, alegando que os que ali fossem enterrados estariam distantes de Deus. Apoiados pelas dezenas de irmandades negras existentes na época, segmentos da igreja católica e populares, a sedição promoveu um conflito beligerante pelas ruas da cidade que durou alguns dias.

A licença para funcionamento do campo santo foi revogada e aos poucos a paz voltou a reinar na cidade de São Salvador, contudo, tempos mais tarde a diocese de Salvador proibiu o enterro de negros no interior das igrejas. A ordem social vigente entre os vivos, enfim chegava ao mundo dos mortos.

Vida e morte continuam entrelaçadas em um nó indissolúvel. Viver, sem ter a vergonha de ser feliz e a receita do poeta. E a morte? Qualquer que seja a resposta, é o ponto de parada, é o fim do caminho. Um tema delicado, considerado tão funesto e tenebroso que todos nós evitamos falar abertamente.

Nesses tempos sinistros, em que a morte “parece” banal, precisamos mais do que nunca acreditar na ciência, bem como em todos os santos e deuses que habitam em cada um de nós. Pedir à eles que encham de sabedoria as mentes dos homens de bem desse país, e que eles lembrem que o bem estar da pátria e do seu povo está acima de qualquer outro objetivo.

 

 

 

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