O empresário Luciano Barreto fala sobre projetos futuros

Carlos Eloy, 28 de Março, 2021 - Atualizado em 28 de Março, 2021


O empresário Luciano Barreto, da Construtora Celi, e presidente do Instituto Luciano Barreto Júnior, foi entrevistado deste sábado (27), do programa Band Empresarial, pelo jornalista Azevedo Filho, da Band Nordeste, que foi um dos primeiros convidados de Sergipe a participar como entrevistado. Luciano iniciou falando sobre o início dos seus estudos em Salvador, como foi sua juventude e revelou: “morei na pensão de dona Lúcia, a mãe de Glauber Rocha, na Labatut14, e tive o privilégio de conviver com o Glauber e com a turma dele, que são todos intelectuais e todos de esquerda”.

A entrevista foi longa, aproximadamente 60 minutos, e Luciano Barreto fez uma fotografia de como iniciou a sua empresa, além de fazer considerações sobre o momento para atuar em um campo difícil como o da construção civil. Disse que que “muito pouca esperança de que as coisas mudem, porque hoje tem um foco muito grande no combate à corrupção, que, na minha opinião, está sendo combatido de forma equivocada, porque corrupção não se combate, se previne e só se previne com legislação adequada, que equilibre os direitos e deveres das duas partes. Num país que tem precatório, num país que o Poder Público paga quando quer e que até empresas públicas de capital aberto estão indo para precatório…”

E continuo: “Então, o que é que acontece? Você pega qualquer empresa pequena, média e grande, têm precatórios. E a esperança dele é que o tataraneto venha receber. Então, toda oportunidade prorroga. Assim, ou se cria legislações que dê o valor que o contratado tenha ou nós vamos ver essa desorganização. E, além do mais, todos esses fatos resultando num negócio péssimo para o país, na nossa visão. É a destruição da engenharia brasileira”.

Entrevista na Integra

Band empresarial – Como é que se desenvolveu essa veia para ser um empreendedor da construção civil? Conta um pouco dessa história, que já vai aí há 50 anos da empresa, de mercado. Mas, digamos assim, a história de Luciano Barreto também é isso?

Luciano Barreto – Nós comemoramos, recentemente, 52 anos de Construtora Celi. Eu comecei a despertar um pouco pelo empreendedorismo quando ocupei todos os cargos da Escola Politécnica da Bahia, da Universidade Federal da Bahia por eleição. Mas ela nasceu em todos os cargos de gestão. Eu fui presidente de diretório acadêmico. Na época, os estudantes da Bahia faziam embaixadas para a Europa. Então, comandei durante quatro anos a Embaixada Oficial dos Estudantes para a Europa, onde percorremos por mais de 30 dias, com recursos que nós levantamos em campanhas feitas tanto na Bahia quanto em Sergipe. Também participei do Conselho Técnico, do Conselho Administrativo. Então, assim, eu tive uma vida muito intensa enquanto estudante de engenharia. Formei-me no ano de 1963 e, em seguida, veio a dita revolução e, com ela, toda a crise da economia e todas as dificuldades de emprego.

Então, tive uma oferta, através de Israel Mendonça, para assumir o Serviço de Abastecimento de Água de Jequié. E aí, tive a oportunidade de conviver com o governador da Bahia, de quem me tornei amigo e compadre e também de conviver com as grandes empresas que estavam começando a crescer, como a Odebrecht, OAS e outras tantas.

Eu tenho dito sempre: Deus tem me colocado no lugar certo, na hora certa. E, então, eu vi que a minha missão na Bahia, enquanto diretor da CESEB – eu fui promovido para Salvador para ser diretor da CESEB, que depois veio a se fundir com a CAERN, formando a EMBASA – estava encerrada.

Aí, vim para Sergipe e botei para o meu cunhado, irmão de minha esposa Maria Célia, a Norcon, e lá demorei apenas dois anos. Eu sempre fui muito inquieto e fundei a Construtora Celi, que, acima de tudo, é uma homenagem à minha esposa, com a qual eu sou casada há 56 anos.

Então começamos a luta, começamos do zero e aproveitamos as oportunidades, aprendendo com as crises. Eu costumo dizer que crise é colcheia de rio, a próxima deverá ser maior. Então, fui me preparando. Graças a Deus, ao completar 52 anos de existência, a Celi é uma empresa estabilizada financeiramente, com credibilidade, com conceito e que tem feito grandes investimentos imobiliários em outras áreas do Estado de Sergipe.

Band Empresarial – A Celi também está em outros Estados. Onde é que a Celi hoje já fincou negócios e onde está fazendo?

Luciano Barreto – Olha, nós tivemos uma participação importante na Bahia. Logo que nós fundamos a Celi, fomos procurar o mercado na Bahia e fizemos algumas obras na Bahia. Expandimos também para Alagoas, Pernambuco. Fizemos obra no Rio Grande do Norte, no Ceará, no Rio de Janeiro e em São Paulo.

Mas, com as crises sucessivas, esses mercados foram se retraindo muito, porque os Governos vêm deixando de investir em obras públicas. E, então, passaram a investir em grandes obras. E aí, hoje, nós temos algumas filiais, mas atuando mesmo com mais força em Sergipe, tanto na área de empreendimentos imobiliários quanto em obras públicas, terraplanagem. E também atuamos no ramo de hotelaria.

Então, nós estamos preparados para a retomada da construção civil de um modo geral e esperamos voltar a atuar em outros Estados. Estamos preparados tecnicamente, estruturalmente e financeiramente para mais esse desafio.

“Construção Civil é conduzida por advogados”

Band Empresarial – E hoje, como é que o senhor entende essa questão das obras públicas? Tem muitas empresas fugindo diante de tantas confusões que houveram, as quais, de alguma forma, as empresas maiores foram muito atacadas. E, hoje, doutor Luciano, o senhor é presidente da ASEOPP (Associação Sergipana dos Empresários de Obras Públicas e Privadas). Como é que o senhor está conduzindo isso e como é que o senhor está vendo isso? Como é o seu olhar sobre isso?

Luciano Barreto – Fundamos a associação há 12 anos e temos mantido, ao longo desse tempo, uma única pauta: discutir a política com relação às obras públicas das pequenas e médias empresas. O Brasil, de 12 anos para cá, só se fixou em preço e punição. Então, tem-se a falsa ideia de que quanto mais barato, melhor para o Poder Público. E sempre vários órgãos – nós temos o maior sistema de controle de gastos públicos do mundo – não se somam para a obra ficar concluída e que a empresa possa ter algum resultado.

Hoje nós vemos o quê? É tudo é punição, tudo é inquérito, tudo é problema. São explicações. E na outra ponta? Milhares de obras sem estarem concluídas e, acima de tudo, para muita tristeza nossa: é enorme a quantidade de empresas que tinham uma atuação importantíssima no Nordeste. Não estou falando das grandes empresas. Eu falo das pequenas e médias. Você pega uma concorrência de 15 anos atrás, e vê que chega a ter 200 empresas aqui do Nordeste. Hoje, quando tem, são duas ou três.

Então, nós temos combatido muito isso. Eu já estive cinco vezes debatendo na Câmara Federal, nós temos debatido no Senado, nós temos participado de eventos. Mas, infelizmente, esse é um tema que não tem interessado nem a nossa categoria – nós não temos tido apoio de ninguém – e também não têm interessado as autoridades.

Então, hoje a construção civil do Brasil é conduzida, não por engenheiros, mas por advogados. Com todo respeito aos advogados. Mas, da mesma forma que engenheiro não deve advogar sem ser formado, os advogados não devem trabalhar com engenharia. Então, hoje, você pega as leis, as normas… Vê que cada órgão de controle tem uma norma diferente da outra. Então, o que acontece? As obras são feitas de acordo com aquelas normas, aqueles manuais e tal, que são elaboradas por advogados ou engenheiros que não conhecem obras.

Tudo que nós temos hoje é tabelado. E essas tabelas são atualizadas com muita demora. Então, tem-se debatido muito sem interlocução com quem resolve, com relação aos acórdãos do TCU, que chega ao ponto de fixar lucro em 1,5% do bruto.

E outra coisa, ainda muito grave, no Brasil, não se pune quem abandona a obra, só se pretende punir quem conclui obra. Isso é uma distorção terrível, porque não se sabe quanto custará à obra que não foi concluída. E essa tem sido a nossa luta. Se você me perguntar se tem evoluído. Eu digo: nada!

Essa lei de licitações nova consegue ser pior do que a anterior, porque só se faz as leis, hoje, em relação a licitações de obras públicas, entendendo que essa lei tem que ser cada vez mais restritiva, porque o foco é combater a corrupção. Só que, em minha opinião, que tem uma experiência de mais de 50 anos na atividade, o foco está equivocado.

Quando eu frisar o seguinte: nós não, nós não temos processos. Eu estou falando em nome de uma categoria aqui de Sergipe. Então, o que acontece? Ninguém está preocupado com a obra ficar pronta.

Banda Empresarial – Eu acho que isso se criou por algum acaso específico e acabou de alguma forma generalizando. Então, tudo é feito de alguma forma para que o empresário seja visto e em primeiro ponto dizer o seguinte: “prove que você é inocente. Aqui eu vou fazer para que você o prove”. Ou seja, calma lá, devagar com esse angu. Então, é preciso ter um pouco mais de boa vontade por ponto dos legisladores e também das autarquias fiscalizadoras.

Luciano Barreto “Tenho muito pouca esperança de que as coisas mudem, porque hoje tem um foco muito grande no combate à corrupção, que, em minha opinião, está sendo combatido de forma equivocada. Corrupção não se combate, se previne e só se previne com legislação adequada, que equilibre os direitos e deveres das duas partes. Num país que tem precatório, num país que o Poder Público paga quando quer e que até empresas públicas de capital aberto estão indo para precatório…

Então, o que é que acontece? Você pega qualquer empresa pequena, média e grande têm precatórios. E a esperança dele é que o tataraneto venha receber. Então, toda oportunidade prorroga. Então, assim, ou se cria legislações que dê o valor que o contratado tenha ou nós vamos ver essa desorganização. E, além do mais, todos esses fatos estão resultando num negócio péssimo para o País, na nossa visão. É a destruição da engenharia brasileira.

Então, hoje, o engenheiro se forma e a perspectiva dele de trabalhar e de evoluir na profissão é dificílima. Eles não terão a oportunidade que eu tive. Eu consegui, com muita luta, com muito apoio da família, me manter de maneira saudável. Essa é a nossa opinião pela qual nós temos lutado muito, mas sem êxito.

Sobre mercado Imobiliário

Band Empresarial – Fale um pouquinho sobre o mercado imobiliário, principalmente, de Sergipe, de Aracaju e da Celi.

Luciano Barreto – Eu fiz com os meus netos – eu tenho seis netos lindos, maravilhosos – um conselho de jovens empresários. E eu destaco as coisas mais importantes: o primeiro é esse, o segundo é humildade e austeridade de trabalho. Então, a humildade é uma das ferramentas importantes para quem atua em nossa atividade.

O mercado de Sergipe é igual a tantos outros Estados, pois acontece de forma muito parecida do Nordeste. Hoje se vive algumas dificuldades com essa elevação brutal de materiais, que é muito interessante. Não há controle dos preços de nossos insumos. Mas o nosso preço em relação às contratações públicas e os programas sociais da Caixa Econômica são controlados. Então, isso gera uma preocupação muito grande daqueles que contrataram o “Minha Casa Minha Vida”, que agora é o “Casa Verde e Amarela”, nessa transição. O ferro sobe toda semana, cimento sobe, combustível sobe e as tabelas que deviam absorver esses aumentos, que não estão acompanhando.

Band Empresarial – Fala o que é o Instituto Luciano Barreto Júnior, que o senhor criou em janeiro de 2003 e que tem um caráter social de extrema importância, porque busca, de alguma forma, conduzir e ajudar o jovem. Tenho convicção que muitos jovens já devem ter passado por lá. É um lugar que o senhor dedica um tempo bom da sua agenda diária para que isso possa acontecer.

Luciano Barreto – Olha, o Instituto Luciano Barreto Júnior foi idealizado por meu filho, que veio a falecer num acidente de automóvel no ano 2002. E ele tinha uma visão social muito importante e uma preocupação muito grande com o projeto de que se voltasse para a educação. E aí, nós resgatando a memória dele no computador e nos escritos que ele fazia, nos encantamos com a ideia dele. Eu e minha esposa, Maria Céli, resolvemos implantar o projeto com algumas condições que foram expostas. O nosso instituto trabalha com 1.200 jovens por ano, sendo que são mil do básico e 200 de informática avançada.

Nós não concorremos com a escola pública, nós complementamos a escola pública. Nós temos um dado interessante: uma das exigências do meu neto, que nós logo abraçamos, foi que o instituto seria proibido receber doações privadas ou verbas públicas. O instituto é bancado, exclusivamente, pelos meus recursos e da minha esposa. São recursos da construtora. E outra coisa, só pode entrar mediante avaliação, onde se leva em conta dois fatores: conhecimento pedagógico e a situação social. Quanto pior seja a situação social, mais pontos têm para facilitar a entrada no instituto. São proibidas indicações. Eu e minha esposa, se quisermos indicar, não entra.

Então, nós estamos mantendo o instituto sempre dentro dos sonhos de Luciano Barreto Júnior. E, graças a Deus, é um projeto que tem dado certo, porque tem uma Diretoria que é presidida por Maria Celi e que é muito autônoma. Ela trabalha com foco na educação. Hoje, o objetivo é ensinar os meninos a lidar com a Informática. Mas eles tinham dificuldade em algumas coisas, Matemática, Português, aí fomos ampliando. Hoje, nós temos cursos de Matemática, de Português, Inglês. E temos as oficinas de Meio Ambiente, de Empreendedorismo, de Desenho, de rádio. Então, é uma gama de serviço que prestamos aos jovens.

E, realmente, nos emociona e a minha família, a minha esposa quando nós chegamos em algum shopping, qualquer loja de Aracaju, por exemplo, e o atendente, aos nos identificar, de imediato diz: “eu fui aluno do instituto e arranjei esse emprego, porque passei por lá”.

Nós temos muita preocupação e, por isso, temos uma cadeira que é voltada para integrar as pessoas na sociedade através da educação, temos biblioteca e tudo.

Quê espera desse ano?

Band Empresarial – Doutor Luciano, o que é que a gente pode esperar de 2021, dos próximos anos que estão por vir? Tem esse desafio que estamos vivendo da pandemia. Mas o que é que a gente pode esperar da Construtora Celi em termos de empreendedorismo?

Luciano Barreto – Olha, um empresário como eu, que chega aos 80 anos, trabalhando o dia todo, a minha esposa, que tem, aproximadamente, também 80 e tem uma loja de decorações que talvez seja uma das melhores do Nordeste, a Celi Mall Decor, acreditamos muito no Brasil.

Então, nós estamos com vários projetos ligados à habitação, estamos estudando mais um hotel em Aracaju. Nós não paramos, porque eu acho que, para quem tem a nossa idade e tem o privilégio de chegar com saúde, com a família unida, não podemos nunca parar. Nós temos compromisso com o Nordeste, com o nosso Estado, porque somos muito apoiados pela população e pelos empresários de Sergipe.

Então, nós estamos procurando retribuir a nossa região, tudo aquilo que elanos deuem termos de trabalho, de resultado e de apoio ao instituto. Então, enquanto Deus me der saúde e disposição, e isso eu tenho muita, eu espero ainda ter muitos planos para os próximos anos.

Luciano Barreto conclui a entrevista agradecendo pelo convite à entrevista e diz: “Eu todo dia digo: não sou contra o combate à corrupção, mas à destruição das grandes empresas no Brasil não é uma boa política para o pais. O Brasil, em algum momento vai precisar fazer as grandes obras e nós precisamos ter empresas grandes, como essas que, infelizmente, sofreram com essa Operação Lava Jato, preparadas com tecnologia, com equipe, como eles tinham para executá-las.

Mas eu espero que as coisas voltem à normalidade, que todos possam trabalhar. Nós temos um lema na associação e nós batalhamos muito por esse lema: preço justo, obra concluída, sociedade atendida. Essa tem sido a nossa luta”.

 

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