Projeto Rondon (II)

O choque de realidade

Marcio Monteiro, 31 de Outubro, 2020 - Atualizado em 01 de Novembro, 2020

 

 

O Projeto Rondon surgiu cercado de desconfiança durante um dos períodos mais nebulosos da nossa história, mas que transmitia uma credibilidade que fizeram com que empresas doassem equipamentos e remédios, empresas aéreas oferecessem voos charters a preços de custo, religiosos generosamente disponibilizassem hospedagem em seus conventos, prefeituras colocassem veículos e instalações esportivas dos municípios à disposição dos estudantes.

Enfim, havia uma somação de esforços no sentido de apoiar uma iniciativa diferente e que oferecia ganhos para todos, com o objetivo de colocarem os estudantes dentro de uma realidade a que não estão acostumados a colocar em prática os seus conhecimentos acadêmicos em benefício de comunidades não alcançadas por políticas públicas e sem acesso aos recursos mais básicos de sobrevivência.

Em fevereiro de 1969, usando apenas uma camiseta branca com a marca impressa do Projeto e que trazia o slogan “Integrar para não entregar”, mais de quatro mil estudantes se espalharam pelas regiões da amazônica e do pantanal do Mato Grosso (que era apenas um estado com capital em Cuiabá), às margens de toda rodovia Belém-Brasília e pelos estados do Norte e Nordeste.

Havia muita expectativa das autoridades, não com a possibilidade de mudanças imediatas na realidade de carências de comunidades esquecidas pelo Estado e que viviam à sua própria sorte, mas com o fato colocarem jovens estudantes diante de uma realidade que eles desconheciam e motivá-los a também se interessar e contribuir com melhorias nas condições de vida de muitos brasileiros invisíveis pelo estado.

O Maranhão recebeu mais de uma centena de estudantes para atuarem nas localidades mais pobres do Estado e foram recebidos pelo governador José Sarney, que na ocasião manifestou seu entusiasmo com o Projeto, dizendo: “Eu penso que o astronauta Willian Anders, ao contornar a lua: não há nada que substitua o olho humano. Entrem, vivam e vejam o Maranhão com os próprios olhos. A casa é sua”. E lá foram eles, conhecer gente que vivia sem luz elétrica e água encanada, que curavam as suas feridas e arrancam seus dentes, que construíam e mantinham as suas estradas e pontes, e ainda, alfabetizam suas crianças sem terem professores formados.

O Projeto Rondon não teve o reconhecimento que merecia, mas que talvez tenha sido o de maior relevância naqueles momentos de um país assombrado pelo medo e incertezas do futuro. Há que se levar em conta as dificuldades e limitações tecnológicas, em que ter um equipamento de rádio amador; uma máquina fotográfica com alguns rolos de filme de 24 ou 36 fotos; uma filmadora Super 8 (com rolinhos de 3 minutos) e um gravador de fitas cassete eram os recursos disponíveis.

O Projeto, a cada nova Operação se fortalecia e ganhava a adesão cada vez maior da sociedade, servia também para aparar arestas que existiam entre estudantes e militares. Os militares viram no Projeto uma forma de angariar a simpatia dentro e fora do país, pois sua metodologia passou a ser replicada por países como Argentina, México e Israel. Para os estudantes, além dos ganhos de conhecer outras regiões do país e poderem vivenciar uma Operação Nacional, encontravam no Projeto uma oportunidade de serem úteis para a sociedade.

A grandeza do Projeto ficou definitivamente marcada depois de um acontecimento ocorrido a bordo do navio Barroso Pereira, da Marinha, e que transportava 362 universitários para atuarem nas regiões Norte e Nordeste. Um boato que correu durante a viajem de que todos seriam obrigados a distribuírem nas localidades de atuação, cartazes com propaganda enaltecendo a Revolução Militar.

Sabendo do problema, o Tenente-Coronel Mauro da costa Rodrigues, Coordenador do Projeto Rondon reuniu todos os estudantes para dizer. “Isso é desonestidade. O Governo praticou um ato de coragem ao abrir aos estudantes seus pontos vulneráveis, mostrando a miséria e o atraso de nosso País. Mas jamais usaríamos o projeto Rondon para fins publicitários. Ele é muito mais importante que isso”. “Só não prometam nada. Nas operações anteriores, alguns participantes prometeram análise de solo. Até hoje chegam à coordenação do projeto, no Rio, caixotes de terra enviados pelas prefeituras".

A avaliação dos resultados da Operação Nacional em 1969 foi também positiva do ponto de vista da relação custo x benefício, pois as despesas com toda a logística de transporte, alimentação e hospedagem das equipes, foram amenizadas com a utilização de toda a infraestrutura das Forças Armadas.

Ao fim da Operação os estudantes teriam realizado 900 mil consultas médicas e realizado 750 mil procedimentos odontológicos, além do legado de serviços prestados e melhorias realizadas pelos estudantes nos locais de atuação, tonando-se o maior projeto de extensão do Brasil.

O projeto Rondon começava no início dos anos 70, a criar uma consciência nacional que fazia renascer a esperança de tornar realidade o sonho daquele que serviu de inspiração e que dá dava nome ao Projeto, o Marechal Cândido Mariano da Silva Rondon, que além de um grande engenheiro militar, foi um grande sertanista, com visão ampla do sentido da integração e de que o seu trabalho não se restringia apenas fincar postes telefônicos e implantar marcos geográficos.

Haviam comunidades que precisavam ser integradas ao restante do País e atendidas nas suas necessidades mais básicas. Rondon trabalhou nos seus 92 anos de vida na busca desse sonho, o Projeto Rondon, de certa forma resgatou a ideia daquele que serviu de inspiração.

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