EMPREENDER

A atitude de acreditar sempre

Marcio Monteiro, 23 de Fevereiro, 2021 - Atualizado em 23 de Fevereiro, 2021

Segundo a Teoria Empreendedora dos Sonhos, do pedagogo Fernando Dolabela, o empreendedor é “alguém que sonha e busca tornar seu sonho em realidade”; naturalmente alguém que sonha acordado, que busca a realização pessoal e tem um projeto de vida. Acredito que muitos que poderiam bem cedo partir para um voo solo e se tornarem empreendedores, são inibidos por muitos mitos criados em torno do assunto.

Quem já não ouviu alguém dizer coisas do tipo: empreendedorismo é coisa de rico; só quem faz o que gosta alcança sucesso; ou, quem fracassa uma vez vai fracassar sempre. Um dos maiores mitos que encontrei, diz respeito à falsa premissa de que para alcançar o sucesso em um empreendimento é preciso ser um especialista e ter um plano de negócios bem estruturado, antes da tomada de decisão para empreender. A afirmação foi por terra a partir de resultados obtidos em pesquisa realizada nos 500 maiores empreendimentos da história que constatou ser apenas de 4% a parcela dos seus fundadores que realmente tiveram a preocupação prévia de elaborar um plano de negócio ou consultar especialistas, constatação que absolutamente não desqualifica aprendizado acadêmico de como elaborar um plano de negócio.

Dispor de algum capital, ter uma ideia na cabeça e atender a todas as características de um perfil ideal ajudam muito, mas não garantem sucesso. Há variáveis que fogem do nosso controle, ainda mais num país em que nos habituamos a conviver com crises conjunturais ou estruturais, e sobreviver a planos econômicos; além da influência de crises econômicas mundiais recentes e do inesperado choque pandêmico do coronavírus que colocou o mundo em polvorosa e cheio de incertezas sobre o futuro.

Por tudo isso, empreender tem se tornado cada vez mais a alternativa a ser buscada; os planos A e B de quem chega ao mercado para prover-se e à sua família. Embora parte significativa das competências exigidas de um empreendedor possam ser aprendidas ou melhoradas, algumas são inatas. Trazer no seu DNA os genes da iniciativa, autonomia, autoconfiança, comprometimento, persistência, criatividade, liderança, capacidade de trabalho e de assunção de riscos moderados, são alguns dos atributos que aumentam a probabilidade de um indivíduo atingir sucesso, seja numa carreira profissional ou em uma atividade empresarial.

Em princípio, empreender implica em correr riscos calculados; apesar de que no Brasil, os riscos maiores partem exatamente daquele que deveria ser o grande incentivador da atividade empreendedora, o próprio Estado. No Nordeste, a taxa de sobrevivência de empresas com até 2 anos é próxima de 70% (Sebrae). Parece pouco, mas as taxas apuradas em países integrantes da OCDE (Organisation for Economic Co-operation and Development) apresentam valores próximos aos obtidos por aqui, a exemplo da Itália (68%), Espanha (69%) e Canadá (75%).

No Brasil, o empreendedorismo caracteriza-se predominantemente por razões de sobrevivência ou necessidade, em decorrência de falta de oportunidades de trabalho no mercado formal. O empreendedorismo tem sido cada vez mais utilizado no país, à medida em que as oportunidades no mercado de trabalho formal ficam cada vez mais escassas. A redução de benefícios sociais com mudanças na legislação trabalhista (chamada “flexibilização” pelos sindicatos patronais, ou “precarização”, pelos sindicatos dos trabalhadores); a extinção ou terceirização de cargos pela administração pública; e, a redução na oferta de vagas em função dos avanços tecnológicos nas empresas, são alguns dos fatores que estão afastando os jovens das práticas tradicionais de trabalho do mercado formal e os encorajando a partir para o empreendedorismo, apostando em um negócio que possa garantir o seu sustento atual e futura independência financeira.

Buscar a tão esperada estabilidade financeira está cada vez mais distante para a maioria de jovens que chegam ao mercado de trabalho, portando apenas um diploma de universitário. Daí a importância de se tratar o empreendedorismo como uma alternativa de vida, pode ajudar a abreviar o que chamo desse “despertar empreendedor”, que aliado à uma boa formação e orientação acadêmica potencializam as chances de que um novo empreendedor chegue pronto para disputar um espaço no mercado.

Fundamental para quem está iniciando uma carreira ou atividade empresarial é cuidar de se relacionar com grupos de atividades afins, estando permanentemente conectado e recebendo insights do mercado, especialmente em relação a inovações e novas ferramentas tecnológicas que auxiliem no autodesenvolvimento. O mercado de trabalho está cada vez mais desafiador e competitivo, e vencer nesse ambiente, seja como empregado ou empresário, ficará ainda mais difícil depois da COVID-19. Como bem definido pelo sociólogo e professor da Unicamp Ricardo Antunes, “empreendedorismo é um mito que cresce pelo desemprego, o enfraquecimento das políticas sociais e novas tecnologias".

Porém, com ou sem pandemia, verifica-se no cenário atual do mercado de trabalho uma escassez de talentos com competências e habilidades, mesmo em se tratando de atividades relativamente comuns. Por isso é importante que o indivíduo procure desenvolver o seu autoconhecimento e se adequar a novas práticas ou novidades trazidas por aqueles que estão chegando no mercado.

A atitude empreendedora pode ser desenvolvida e ser útil não só para quem pretende montar um negócio, mas sobretudo para os que intentam crescer numa carreira profissional. Porém, temos que ter consciência de que à medida que crescemos profissionalmente numa corporação e permanecemos nela por um longo tempo, na mesma proporção estamos aumentando o risco de perder o emprego; em razão de uma natural acomodação (“zona de conforto”) e do abandono daquela postura assertiva e atitude proativa, comuns no início de carreira.

O mesmo pode servir de alerta para profissionais acima dos 50 anos, que acumularam experiência e desenvolvem um perfil mais questionador, na prática perderão cada vez mais espaço no ambiente corporativo, mesmo que “descaradamente” o marketing estimule e incentive postura mais assertiva e de constante reinvenção do colaborador frente aos desafios de trabalho. O sucesso numa carreira profissional ou empresarial sempre dependerá das oportunidades do mercado, pois é ele quem as oferece e quem dita as regras.

Caso a decisão seja de empreender através da criação de uma empresa, três fatores irão determinar se o novo negócio sobreviverá aos primeiros anos de vida: planejamento, gestão e adequado comportamento do empreendedor; além da probabilidade, mesmo que baixa, do surgimento de dificuldades relacionadas a sócios ou a problemas de saúde. Aceitar o fato de que um dia seremos dono do nosso próprio negócio é a atitude mais racional, ante um mercado de trabalho com carteira assinada cada vez mais restrito e do aumento do desemprego tecnológico decorrente de melhoria dos processos nas empresas.

Cabe ressaltar alguns pontos importantes que devem ser constantemente reavaliados por aqueles que decidem apostar num negócio próprio: assim como na Bolsa, não jogar todas as fichas numa só ação (empreendimento); saber a hora de parar, antes de inviabilizar a opção por outro negócio; e, nunca confundir dinheiro da empresa com os recursos da família.

Acreditar, esse é o verbo a ser conjugado pelo empreendedor que busca através do seu empenho e perseverança construir uma carreira de sucesso ou consolidar um negócio visando a sua independência financeira!

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