De volta aos trilhos da ciência

Por Márcio Monteiro

Marcio Monteiro, 02 de Abril, 2021 - Atualizado em 02 de Abril, 2021

O Governo Federal incorreu em sucessivos erros no enfrentamento da COVID-19, que foram decisivos para a disseminação e agravamento do contágio e a instalação do cenário tenebroso no sistema de saúde do país.

A negação da gravidade da pandemia; a priorização da economia e não instituição de uma campanha nacional de uso de máscara e de medidas sanitárias preventivas; o excesso de protagonismo empírico do Ministério da Saúde que incentivou o uso de medicamentos não indicados ou testados para uso em uma doença até então desconhecida (falta de protocolos e o incentivo aos kits COVID); a avaliação inconsequente da garantia de aquisição de vacinas e de testes rápidos em razão da dependência externa dos insumos de produção (IFAs); e, a inoperância e trapalhadas ideológicas do Ministro das Relações Exteriores, que transformou o Palácio do Itamaraty numa espécie de “Ministério da Guerra”, pior, agredindo nosso maior parceiro comercial e único fornecedor de insumos para fabricação de vacinas.

Acrescente se a essa receita de caos a falta do exemplo do próprio Presidente da República de impingir ao seu staff o procedimento irracional do não uso de máscaras nas aparições públicas, menosprezando o sentimento dos milhares de brasileiros que choravam a perda de seus entes, no que habituou adjetivar de “mimimi”, culminaram num grande fracasso ao combate à pandemia e o comprometimento da economia como um todo, ao ponto de nos aproximarmos perigosamente ao risco de ruptura constitucional.

Apesar de todas essas trapalhadas e vendo o cacife político literalmente derretendo, restou ao Presidente convocar no Ministério da Saúde um militar para botar ordem na casa. O ministro chegou chegando, cheio de boas intenções, altamente referendado pela sua especialização em logística militar, mas de pronto frustrou as expectativas, a partir de dois eventos: o colapso de oxigênio no Amazonas e do “constrangimento” sofrido em Rede Nacional a que foi submetido pelo próprio Presidente da República. O resultado não poderia ser outro, senão o da instalação do caos na saúde, potencializado por ações corruptas e inação de alguns governadores e prefeitos, que em sua maioria ficaram prostrados em seus gabinetes esperando por recursos federais e sem tomarem as rédeas do enfrentamento à pandemia em seus territórios.

Foi necessário que o país alcançasse o vergonhoso recorde de 300.000 óbitos e atingir a absurda média diária de 3.000 mortes, número correspondente em um dia e meio aos óbitos acumulados pela China durante toda a pandemia (4.600 mortes), para que os governos começassem de fato compreender a gravidade da situação e mobilizarem se no sentido de agir através da decretação do lockdown (confinamento) e toque de recolher, e coordenadamente ganharem força para pressionar o Governo Federal pela agilização da compra de vacinas e mudanças na atuação pífia do Ministro da Saúde que recolocasse o trem do negacionismo nos trilhos da verdade científica.

O Presidente respondeu com a saída mais segura pra si, substituindo o seu fiel general por um médico cardiologista de confiança da família. Mesmo cacifando-se politicamente e subindo alguns centímetros no seu “vaidômetro”, não há como deixar de reconhecer o papel relevante protagonizado pelo governador de São Paulo nesse momento mais crítico da pandemia. Assessorado pelo presidente do Instituto Butantan, o governador agiu com sabedoria política e eficiência, antecipando-se ao Ministério da Saúde em relação à aquisição de vacinas prontas e IFAs contra a COVID, além de preparar toda a estruturação logística visando a nacionalização da produção de imunizantes.

O governador paulista mostrou se mais sagaz e articulado para concretizar a importação de vacinas e insumos para alimentar a linha de produção do Butantan, saindo na vanguarda da produção da Coronavac (Chinavac para ex Ministro), imunizante sem o qual o Governo Federal não teria sequer como iniciar à campanha nacional de vacinação. Ante a escassez de vacinas no mercado mundial, a negociação de imunizantes ficou temporariamente restrita às empresas produtoras, aos governos dos países e à Organização Mundial da Saúde, o que inviabiliza no curto prazo a aquisição direta aos produtores de imunizantes via iniciativa privada. Essa alternativa em futuro próximo certamente irá ajudar países como o Brasil a acelerar a cobertura vacinal da população, após a imunização dos chamados grupos de risco e profissionais que atuam diretamente no enfrentamento da doença e na execução das medidas de controle social.

O legado de aprendizado desta pandemia é de valor inestimável para a ciência no enfrentamento de futuras pandemias, que certamente virão em função das mudanças climáticas e da crescente degradação ambiental do planeta. Gaia (Mãe-terra) sempre se ajusta e responde as agressões do homem ao ecossistema global, impondo-lhe novas tragédias ambientais, dentre as quais, novas pandemias, geralmente provocadas por seres que foram desalojados de seu habitat natural por terremotos, maremotos, secas prolongadas, incêndios florestais, enchentes, desmatamentos, dentre outros desastres ambientais extremos.

Quanto à classe política e agentes públicos, contínuo acreditar que devam estar aproveitando esse momento rico em aprendizado e para tirar lições positivas desta pandemia, embora saibamos que muitos deles infelizmente continuarão a praticar o que sempre fizeram, locupletar-se da miséria do povo à custa do erário.

A ANVISA, mesmo antes da pandemia era questionada sobre os seus excessos e preciosismos burocráticos, confirmou a expectativa de que precisa passar por uma reformulação administrativa, quando a Agencia rejeitou, mesmo que em caráter emergencial, a liberação de importação de vacinas aprovadas, aplicadas em países do primeiro mundo e com comprovação científica de resultados de segurança e eficácia publicados em revistas especializadas (vide Covaxin).

O ser humano, por sua vez, diante dessa pandemia passou a vivenciar situações inusitadas e a ser forçado pelas circunstâncias, a rever prioridades e até conceitos de vida. Valorizando mais as relações humanas, aceitando com parcimônia regras restritivas para precaver-se de um ser cruelmente fatal, sorrateiro e invisível aos olhos. Sentimento bem descrito no verso final do poema “Primeiro de abril”, de autoria do professor, Assuero Cardoso, (Publicado pelo jornalista Jozailto Lima, em seu blog) e que descreve com rima e precisão esse momento difícil pelo qual estamos passando. “Queria que fosse mentira o que a vida me conta.  Que o mundo anda doente, que o desespero desponta. E que pessoas infelizmente, nem remediadas estão. Estão também enfermas, vazias, trancadas e ermas dentro da mesma solidão”.

Concluo deixando para reflexão dos leitores uma mensagem, que de certa forma nos ajuda a manter a esperança por dias melhores além da pandemia. Assim como estou escrevendo sem ser jornalista, outras pessoas estão aprendendo a pintar uma tela; prestar consultoria em home office; vender cosméticos via Whatsapp; confeccionar máscaras de pano; cozinhar sem nunca antes ter fritado um ovo; aprender a consertar maquina de lavar via You Tube: ou, ministrar aulas de Pilates no Instagran.

São apenas alguns exemplos de atitudes que demonstram que estamos nos esforçando para nos adaptar ao distanciamento social imposto pela pandemia, e ao mesmo tempo evoluindo interiormente e em nossos relacionamentos, agregando novas habilidades e nos ensinando ser melhores do que fomos para enfrentarmos com mais “potência”, como diria o filósofo Clóvis de Barros, os grandes desafios que estão logo ali, em 2022.

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