As luzes de Medina... Por Antonio Samarone.

Antonio Samarone, 18 de Maio, 2024

política de 1906, em Sergipe, destoou da tradicional e modorrenta vida política do Estado. Finalmente, um fato para enfeitar os discursos acadêmicos.

Fausto Cardoso, político eleito em pleno acordo com as oligarquias, se rebelou, quis fazer uma revolução em Sergipe. Tentou invadir o Palácio do Governo, sem sucesso, sendo contido pelas forças de segurança. Morreu nas escadarias.

Dias depois, no Rio de Janeiro, o Senador Olympio Campos, líder político de Sergipe, padre, monarquista, conservador, foi assassinado pelos filhos de Fausto Cardoso, em vingança a morte do pai. O laudo cadavérico do Monsenhor, constatou quatro tiros nas costas, um na cabeça, e um ferimento de faca nas costas, de três centímetros.

Um cenário perfeito para se montar uma narrativa histórica: Fausto, um líder jacobino, tenta invadir o palácio em busca de liberdade (tomar o poder), e é assassinado pelos conservadores. Na versão dominante, conservadores liderados pelo Padre Olympio Campos.

Essa versão embasou teses, encheu livros de histórias, é ensinada nas escolas e foi proclamada em Praça Pública. No velho maniqueísmo: Fausto Cardoso era o progresso e Olympio Campos o atraso.

Sergipe gravou a tragédia denominando a Praça do Palácio de Fausto Cardoso e a Praça da Catedral de Olímpio Campos. Um detalhe ideológico: entronizaram a estátua do monsenhor na Praça, de costas para a Catedral e de frente para os fundos do Palácio. Nada é inocente.

O heroísmo de Fausto Cardoso não foi exaltado apenas pelos historiadores avermelhados. O ex Senador, médico, o competente Francisco Rollemberg, conservador, insuspeito de qualquer esquerdismo, organizou e escreveu uma apresentação ao alentado Perfil de Fausto Cardoso, publicado em 1987, pela Câmara dos Deputados, com 1.297 páginas.

Numa passagem da introdução ao Perfil de Fausto, Rollemberg cita Rodrigo Andrada: “A bancada mais brilhante dentre os deputados da 4ª Legislatura fora mandada por Sergipe, que com quatro representantes apenas, dispunha de nomes ilustres como os de Sílvio Romero, Fausto Cardoso e Rodrigues Dória”. O quarto nome era Joviniano de Carvalho, não menos competente.

Não foi bem assim! Nos mostra o belo livro “As Exéquias do Monsenhor Olympio Campos”, da pesquisadora Ana Medina e do professor Monteiro, que acaba de ser publicado.

Ana Medina declara, logo na introdução: “Não tenho a intenção de acender velhos ódios, querelas de faustimos e olimpismos”. Não tenha esse receio, Ana, atualmente, os ódios acesos são outros. E estão bem acesos.

Eu suponho a força desse ódio ancestral dos sergipanos!

Visitei o professor Walter Cardoso, em seu leito de morte. Ele, lúcido, me fez uma observação: “Não é verdade que as minhas tias negaram um copo de água a Fausto, quando ele, agonizante, passou em nossa porta.” As tias do Dr. Walter moravam na esquina da Travessa José de Faro com a Rua Pacatuba, onde hoje funciona uma agência da Caixa Econômica. No caminho do Palácio.

Ana Medina defende o Monsenhor, das injúrias e invencionices, cabíveis, só ideologicamente, na alma de um conservador. Para tornar Fausto Herói tudo foi permitido. Até esquecer o padre.

Olympio Campos foi um idealista: entrou na política para defender o ensino religioso, atacado pelos republicanos.

O livro de Medina revela um detalhe que eu desconhecia: nos estertores da morte, Fausto Cardoso, balbuciou uma encomenda: “mataram-me, os meus filhos me vingarão”. Não se nega a última vontade de um pai.

Medina exalta o monsenhor, reascendendo a nossa memória.

Os restos mortais do monsenhor estão na Catedral do Aracaju. Na lousa original tinha o seguinte epitáfio: “Ajoelhai-vos, sergipanos. Aqui jaz o maior sergipano do seu tempo”! Claro, com as reformas, hoje resta um mármore branco.

O livro de Medina não trata da política, é um livro sobre as exéquias, o ritual, as homenagens, os tributos, um livro cheio de poesia. Eu, num vício incorrigível, é que fico metendo a política.

Só no final, a partir da pág. 155, é que a política entra em pauta no livro. Pelo estilo da escrita, talvez seja a parte do professor Monteiro, do Lagarto. Escrito de forma jornalística, sem grandes novidades. Nada que não se tenha dito antes. Cheio de citações ecléticas. Porém, não compromete.

A novidade do livro são as memórias das exéquias. Palmas para Ana Medina, mesmo parente do Monsenhor, narra com leveza e equidistância. Escreve com o coração.

Antonio Samarone (médico sanitarista)

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