A biografia de José Leite, resenha do livro de Dilson Barreto

Por Antônio Samarone

Antonio Samarone, 19 de Setembro, 2019

Não se escreve uma biografa em vão. Biografa-se com finalidades precisas: exaltar, criticar, demolir, descobrir, renegar, apologizar, reabilitar, santificar, dessacralizar. O livro do economista Dilson Barreto, sobre a vida de José Rollemberg Leite, procura construir a memória de um personagem da vida pública sergipana. Criar uma narrativa!

Sergipe, do ponto de vista nacional, é um estado desprovidos de grandes nomes na política. Ressalvando-se Olímpio Campos, Fausto Cardoso, Leandro Maciel e o General Maynard, mais um ou dois, a vida pública sergipana foi dominada por líderes discretos, de pouco destaque fora da Província.

O economista Dilson Barreto escreveu uma biografia política, muito próximo de um livro de história. Fui procurar sobre a vida pessoal, a intimidade do biografado, e não encontrei muita coisa. As informações sobre a vida privada, são frias, objetivas, uma espécie de Curriculum vitae ampliado. Passa-se a impressão que ele já nasceu como um homem público. O livro é uma parte da história política do PSD em Sergipe.

Mesmo quando o autor trata das festas de São João, onde o biografado aparece como amante das canjicas e manauês, feitas em fogão a lenha, a narrativa serve apenas para torná-lo mais popular, pelo menos no fundo, bem no fundo. Não se fica sabendo quem era José Leite, na vida privada. Talvez o autor tenha respeitado o recato da aristocracia sergipana.

Uma fato singelo despertou o meu interesse provinciano e bairrista: José Leite se casou em Itabaiana, em 15 de julho de 1939, com D. Maria de Lourdes Silveira Leite, irmã de Zeca Mesquita. Nos em Itabaiana acreditamos, que por isso, tivemos um Ginásio no início da década de 1950. Esse fato mudou a vida de muita gente, inclusive a minha. José Leite levou o ensino secundário para Itabaiana.

A vida privada é contada no que ela se relaciona com a vida pública. Por exemplo:

Uma passagem na página 93 é esclarecedora: “No ano de 1928, agora com 16 anos, José Rollemberg Leite encerra a segunda etapa de sua jornada intelectual, recebendo uma educação alicerçada no rigor da disciplina e elevado nível de conhecimento. Decorrente de sua rígida educação doméstica, sempre se destacou como uma aluno responsável, dedicado aos estudos e cumpridor de seus deveres de estudantes.”

Aqui estão assentados os pressupostos da imagem do homem público José Leite, que o autor quer transmitir para os leitores e para a memória. Essa imagem já é em parte difundida pelo senso comum: de um homem preparado, justo e honesto.

A ideia de glorificar os feitos e realizações dos governantes remonta às primeiras civilizações da Antiguidade.

Mesmo o autor se auto considerando um admirador prévio do biografado, o livro não distorce, e procura fundamentar as interpretações. O livro não entra no pantanal da apologia, gênero tão comum em Sergipe del’ Rey. Seria injusto colocar o livro na categoria das hagiografias.

Por exemplos, alguns fatos polêmicos do primeiro governo José Leite são enfrentados:

O assassinato do militante Anísio Dário, o espancamento do jornalista Fragmon Carlos Borges e os atos de violência contra José Onias, líder udenista de Propriá, no inicio do primeiro Governo José Leite, são atribuídos ao Secretário de Segurança Pública, João de Araújo Monteiro, o temido Monteirinho, e a “mão pesada” do Comandante da Polícia, Djenal Queiroz, que recebiam ordens diretamente do Presidente Eurico Gaspar Dutra.

Na versão do livro, José Rollemberg Leite sai isento desses episódios de violência.

Por outro lado, José Rollemberg era acusado de fazer “vistas grossas” ao comunismo, pela opção política do seu irmão, Márcio Rollemberg Leite, promotor público, simpatizante do credo vermelho, ligado ao PCB.

No mais, a biografia exalta os feitos dos governos José Leite, em especial, a sua honradez na participação na vida pública. O livro ressalta as virtudes do biografado, um técnico que atuou na política, um homem de grandes virtudes morais. O livro também é uma prestação de contas da vida pública de José Leite, numa versão autorizada
.
Como biografia é uma bom livro de história. Sem a pretensão cientificistas, os fatos citados são devidamente referenciados.

Em síntese, o livro vale a pena ser lido. Está bem acima da média das biografias locais, geralmente bajulatórias. É uma pesquisa de folego, que terá grande valia para os interessados na história política de Sergipe. Cada um que faça a sua leitura.

Antônio Samarone.

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