A Peste silenciosa de Meningite em Sergipe - 1971/1975. (por Antonio Samarone)

Antonio Samarone, 30 de Março, 2020 - Atualizado em 30 de Março, 2020

 

Durante o período da ditadura militar, o Brasil enfrentou a pior epidemia de meningite de sua história. O país já tivera antes dois surtos da doença - um em 1923 e outro em 1945 -, mas, nenhum deles tão grave ou letal.

O Brasil foi vítima do ataque de dois subtipos de meningite meningocócica: do tipo C, que teve início em abril de 1971, e do tipo A, em maio de 1974. Foi uma epidemia silenciosa, ocultada.

No início, a ditadura cuidou de esconder os fatos.

Sob o pretexto de não causar pânico na população, a censura proibiu toda e qualquer reportagem que julgasse "alarmista" ou "tendenciosa", sobre a moléstia.

A população mais carente se queixava dor de cabeça, febre alta e rigidez na nuca, sintomas clássicos da doença. Nos bairros mais pobres, muitos morreram sem diagnóstico ou tratamento. Quase ninguém sabia que estava ocorrendo uma epidemia no Brasil, morria-se sem saber.

A maior epidemia de meningite da história do Brasil teve início em 1971. Em setembro de 1974, a epidemia atingiu seu ápice e a verdade apareceu. A população entrou em pânico.

Quando a doença se alastrou em 1974, o governo tomou medidas drásticas: decretou a suspensão das aulas e suspendeu eventos esportivos. Os Jogos Pan-Americanos de 1975, que estavam marcados para acontecer em São Paulo, tiveram que ser transferidos para a Cidade do México.

Uma das primeiras medidas foi prescrever sulfa, para todos os sintomáticos. A população passou a tomar o antibiótico por conta própria. O estoque acabou rapidamente e a bactéria ficou resistente.

Em 1975, o Brasil deu início à Campanha Nacional de Vacinação Contra a Meningite Meningocócica. O Brasil importou 80 milhões de doses da vacina do Instituto Pasteur Mérieux.

Foi a partir dessa emergência que se criou, na Fiocruz, a fábrica de fármacos, a Farmanguinhos, e a de vacinas, a Bio-Manguinhos, que está nos servindo agora, no enfrentamento da Covid – 19.

Nessa campanha de vacinação a imunização foi realizada com uma "pistola" injetora de vacina. Abandonou-se agulha e seringa. Como esquecer essa novidade da tecnologia militar: na ditadura, até vacinação era feita com pistola (veja foto).

Sergipe não ficou de fora da Epidemia.

A meningite grassou livremente por aqui, na epidemia de 1974. O maior problema em Sergipe era para onde encaminhar os doentes de meningite, durante a epidemia?

O Ministro da Saúde, Paulo de Almeida Machado, veio à Sergipe cobrar providências sobre a assistência às vítimas da Epidemia.

O Hospital Lourival Batista (1970), foi construído para ser um hospital de referência de doenças infecciosa. Antes da inauguração, a Polícia Militar ocupou, como forma de pressão, para torná-lo da polícia.

Em 10/02/1972, o Governador Paulo Barreto cedeu o hospital de doenças infeciosas para a briosa Polícia Militar, nascendo o HPM (Hospital da Polícia Militar), sob a direção do Dr. Sálvio Paiva Mendonça.

Em 1974, quando explodiu a epidemia de meningite em Sergipe, não existia mais hospital de referência. Foi um corre-corre. Para onde encaminhar os pacientes com meningite?

O Senador Francisco Rollemberg defendeu publicamente a retomada do Hospital da Polícia, para torná-lo referência da Meningite. Afinal, foi construído para isso.

O Governador Paulo Barreto decidiu que a referência de meningite seria o centenário Hospital Sílvio César Leite, em Riachuelo. O Senador Rollemberg protestou: “o Hospital de Riachuelo é pequeno, fica numa rua estreita e a cidade não tem saneamento.” O esgoto do Hospital corria a céu aberto.

Como agravante, defronte ao Hospital de Riachuelo funcionava um orfanato com mais de cem crianças, o “Abrigo de Menores Antonio Franco”, sob os cuidados do piedoso Padre Padilha. Por proteção de Deus, nenhuma criança do orfanato contraiu meningite durante a epidemia.

Não houve jeito, o Hospital de Riachuelo se transformou na referência ao atendimento dos casos de meningite, na epidemia de 1974. Por coincidência, o primeiro paciente de meningite tratado em Riachuelo, foi um soldado da polícia militar.

O pequeno Hospital de Riachuelo (26 leitos), recebeu um encargo gigantesco. Por sorte, estava chegando à Sergipe, um pernambucano de Bodocó, o médico Hélio Luna Gomes, que encarou a missão espinhosa e foi morar no Hospital.

O Dr. Hélio Luna, montou uma pequena equipe com os colegas José Valdison de Sá, José Lealdo Feitosa Lima e Jorge Martins. Foram os responsáveis pelo enfrentamento da maior epidemia de meningite do Estado.

Sergipe deve muito ao desconhecido, discreto e competente Dr. Hélio Luna Gomes, que ainda trabalha no mesmo Hospital. Há muito que a referência de meningite deixou de ser o Hospital de Riachuelo.

Antonio Samarone.

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