Carta aberta ao Governador Belivaldo Chagas. (por Antonio Samarone)

Antonio Samarone, 09 de Julho, 2020

Quem está falando sobre a Peste?

Os especialistas (que sabem muito sobre quase nada), os médicos visionários (que acreditam ter encontrado a cura (ou quase), os jornalistas e os curiosos de todas os gêneros.

E os cientistas? Bem, uma parte fala de vez em quando. A maioria está tentando encontrar uma vacina ou um testando novos medicamentos, sob a supervisão interessada da indústria farmacêutica.

Quem decide? Os políticos! Acharam que ia ser moleza. Estado de emergência, muito dinheiro, poderes imperiais para cuidar de uma gripezinha, era um caminho fácil para o sucesso. O povo seria protegido, e os seus líderes endeusados.

Nas Pestes e nas Guerras quem primeiro desaparece é a verdade.

A gestão das Pestes é complexa, mexe com muita coisa, com muitos interesses, e ninguém tinha experiencia. A última Peste, a Gripe Espanhola, ocorreu a mais de cem anos.

Na Febre Amarela do início do século XX, o Presidente Rodrigues Alves entregou o combate a Oswaldo Cruz, com plenos poderes. O combate a Gripe Espanhola (1918), no Rio de Janeiro, estava sob o comando de Carlos Chagas. Em Sergipe, quem coordenou as ações na Espanhola foi o médico Eronides Carvalho, antes de ser político.

Quem sempre enfrentou as Pestes, foram os profissionais qualificados. Os políticos nunca tiveram a ousadia de tomarem a frente. Agora tomaram...

Se sabe muito pouco sobre o novo coronavírus. A Pandemia dura até quando? Não se sabe. Quais os estragos finais? O que sobrará? Como será a vida no pós-pandemia? Quais as sequelas? São indagações sem resposta.

Um dos fatores dessa confusão sergipana na atual pandemia, onde ninguém sabe para onde estamos indo, nem quais são os melhores caminhos, não tenham dúvidas, é esse protagonismo dos políticos, gente com outros interesses.

A quem entregar a gestão da Pandemia?

Não pode ficar a cargo do judiciário, a “jurisprudência” não ajuda. O uso de princípios gerais do direito para normatizar contingências desconhecidas, guiados pelo senso comum, não é um bom caminho. Em breve, os protocolos médicos serão decididos nas barras dos tribunais.

A vigilante Justiça Eleitoral tem uma tarefa: afastar os Prefeitos em campanha para a reeleição do comando da Pandemia. Eles tratam mais da campanha deles do que da campanha da Peste.

Nem cabe as Forças Armadas (devolvam o Ministério da Saúde).

As Pestes deixaram de ser objeto das religiões, as igrejas estão fechadas.

O famoso Mercado só trabalha com lucros certos. Vai vendendo máscaras, álcool em gel, testes sorológicos incertos, termômetros digitais etc. Por enquanto, não se interessou pela terceirização da Peste. Nem os mais fanáticos neoliberais, advogam essa fatia para o mercado.

E quem pode cuidar dessa Praga?

A minha sugestão: entregue aos profissionais de saúde.

Governador, nomeie uma comissão técnica, com poderes de decisão, e saia da frente. O senhor está atrapalhando!

Nomeie uma comissão de técnicos independentes, que não tenha medo de contrariá-lo. Não bote os carreiristas do serviço público, gente viciada na submissão, que não diz o que pensa. Gente que só fala “sim senhor”.

Convoque o Comitê Científico do Nordeste para ajudar, atenda as suas recomendações. Essa gente sabe o que está dizendo.
Governador, assuma outra coordenação.

Governador, cobre um planos de ação, convoque a sociedade para ajudar, faça parcerias, enquadre os Prefeitos, sobretudo os que estão em campanha, não tente controlar a imprensa.

A sua autoridade institucional deve ser repassada para os profissionais experientes em saúde pública (existem muitos em Sergipe), que eles saberão encontrar o melhor caminho para atravessarmos a tragédia, com menos sofrimento.

Pense com humildade.

Antonio Samarone. (médico sanitarista)

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