Que fim levaram os Batráquios? (por Antonio Samarone)

Antonio Samarone, 23 de Outubro, 2020

Ontem à noite, apareceu aqui em meu condomínio o velho Sapo-Cururu (esse da foto). Nunca mais! Tão presente em minha infância. Tinha desaparecido, por onde andavas? Isso mesmo, o Rhinella marina, uma espécie oriunda da América Central, naturalizada Itabaianense!

Os Cururus (nome Tupi), já foram chamados pela zoologia de Bufo marinus, foi assim que aprendi no ginásio. Não sei por que mudaram. Eu gostava mais de Bufo, uma homenagem aos Bufões, ao Bobo da Corte.

No primeiro ano de medicina, participei da inauguração do biotério da UFS. Na verdade, só tinha sapos, ratos e cobaias. O Reitor, Aloiso Campos, perguntou ao funcionário responsável pelo Biotério: o que é que esses sapos comem?

O velho Bigode, um funcionário antigo da UFS, perto de se aposentar, tomou um susto com a pergunta. E respondeu sem pensar: “sol, luar e sereno da madrugada”.

Seu Bigode nunca tinha imaginado que precisasse dar comida aos sapos. A partir desse dia, o orçamento da Universidade incorporou mais um item de despesa.

Pensei em me apropriar do Cururu do condomínio, botá-lo em meu jardim para cria-lo. Já tenho cão e gatos, porque não um sapo de estimação. Resisti ao impulso e o sapo ficou lá, aproveitando a iluminação do poste, que atraia os insetos.

Me acordei pela madrugada para saber se ele ainda estava em minha porta. Nada! O bicho sumiu. Não imagino onde fique a residência da sua família. Onde um animal desse porte se esconde dos humanos?

Diriam os mais simplistas: ora, os sapos moram nas lagoas. Mas aqui não tem lagoas. É Praia. E até onde eu sei, sapos não gostam de água salgada. Seja lá onde for, espero que esteja protegido dos humanos.

Apesar do relevante serviço prestado a Saúde Pública (sapo come mosquitos), os sapos não gozavam de simpatia em Itabaiana. Metiam medo. Eram vítimas de perversidades, num tempo que a consciência ecológica era mais embrutecida.

Eu nunca tive medo de sapos. Não os pegava por achá-los frios e acreditar que eles possuíam um veneno que poderia cegar-me. Entretanto, nunca pisei em “cama de sapo”, onde se contrai uma frieira agressiva, daquelas que se coça até tirar sangue.

"Não se pisa nem em cama de sapo nem em espinha de cobra (essa aleija)." Um ensinamento que aprendi com o meu avô.

Eu sempre gostei dos sapos, do seu canto repetitivo: “Quando eu morrer, meu cabedal prá quem fica? E a família batráquia respondia em coro: “prá eu, prá eu, prá eu”. Foi assim que mamãe me ensinou, numa fantasia bucólica, de quem vivia com o pé na roça.

O gênio Jackson do Pandeiro cantou: “É assim que o sapo canta na lagoa, uma toada improvisada em dez pés. Tião - Oi! Foste? Fui! Compraste? Comprei! Pagaste? Paguei! Me diz quanto foi? Foi quinhentos réis.”

Eu não separava as espécies, rãs, jias, caçotes era tudo sapo. Os girinos já eram sapinhos.

As margens do Tanquinho eram lotadas de caçote do papo amarelo. Tudo parecido com jias. Nunca entendi por que não se comia caçote, se jias é uma guloseima apreciada. Em Itabaiana tinha gente que exportava carne de jia. Não me pergunte para onde, que eu não sei.

Eu lembro-me de um churrasco de jias, no sítio de Lito de Pedro Funileiro, no povoado Mangabeira. Tem a fama de ser uma carne tenra, um frango refinado. Ou as jias foram extintas (como os sapos em Aracaju), ou comer jias virou crime ambiental. Não sei!

Onde funciona a Sociedade Sergipana Protetora das Jias?

Em Itabaiana existiam criatórios de jias. Todas na engorda, como guaiamum!

As rãs são mais expertas, convivem bem no meio urbano.

A quarentena teve um lado bom, trouxe os sapos de volta. Seja bem-vindo velho Cururu, estava com saudades. Agora vai ser fácil a sua janta, os atuais mosquitos não lhe conhecem, lhe acham um predador lento. Não sabem os artrópodes o poder da sua longa língua, extensa e ágil.

Antonio Samarone. (médico sanitarista)

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