Um Restinho de Memória. (Por Antonio Samarone)

Antonio Samarone, 24 de Fevereiro, 2021

Durante a quarentena, deixei o cabelo crescer e tive uma surpresa no espelho: fiquei muito parecido com mamãe. Os cabelos são os mesmos.

Com a idade, as lembranças infantis estão brotando em seus mínimos detalhes. Será um aviso da memória? Aproveite enquanto é tempo, pois estou de malas prontas. Vou embora!

Minha mãe era uma católica tridentina, temente a Deus. Mamãe tinha uma cópia do catecismo do Concílio de Trento, que estampava na capa: “O Cristão confia apenas na misericórdia de Deus”. O catecismo estava certo.

O medo do “fogo eterno” era uma realidade poderosa.

Acho que depois do Concilio Vaticano II mamãe esfriou com o catolicismo, terminou virando evangélica. Eu já tinha voado do ninho. O que ficou em minha memória foi mamãe na Irmandade das Filhas de Maria”. E eu neto!

A minha primeira lembrança da missa, era rezada em latim, com o padre de costa para o rebanho. Mamãe acompanhava, sem saber o latim, apenas pela sonoridade. Cantava fervorosamente, em voz alta, o “Tantum ergo sacramentum”. Eu gostava da liturgia e do cheiro do incenso na hora da eucaristia.

Eu gostava do cheiro da igreja, das luzes das velas, dos sons dos sinos e das rezas cantadas. Tinha medo das imagens do Senhor Morto e de Nossa Senhora das Dores.

Sinto saudade do coral das devotas, ressoando em meus ouvidos: “Queremos Deus, homens ingratos/ ao Pai Supremo ao Redentor/ Zombam da fé os insensatos/ Erguem-se em vão contra o Senhor.”

O catecismo de Trento ensinava que a caridade era o caminho da salvação e a esmola era a caridade no varejo. Seja lá quanto for, todos podiam dar uma esmola. “Quem dar aos pobres empresta a Deus.”

Nessa visão medieval, acabar com a pobreza seria um desproposito. Com quem praticar a caridade? Em Itabaiana, o pão dos pobres era uma prática sagrada dos devotos de Santo Antonio.

Aos domingos, à frente da Matriz de Santo Antonio e Almas, em Itabaiana, ficava lotada de mendigos, prontos para ajudar na salvação dos ricos e remediados.

Quando Seu Durval do Açúcar ia à missa, os mendigos tiravam a sorte grande. Seu Durval era um rico não avarento, como mamãe dizia.

O generoso Durval do Açúcar distribuía o peixe e coco para os pobres, na Semana Santa. A fila em sua porta dobrava quarteirões. Não precisava avisar, todo mundo sabia o dia. Vinha gente de longe.

Certa feita, uma senhora que tinha pose de rica entrou na fila do Peixe. Logo-logo um puxa-saco foi fuxicar: “Seu Durval, fulana está na fila e ela não precisa. Todo mundo sabe que ela é rica.” Seu Durval, no alto da sabedoria, reprendeu o fuxiqueiro: “Deixe de besteira, se ela está na fila é porque precisa, ninguém passa por esse vexame à toa.”

Mamãe precisava, mas nunca foi. Preferia comer pilombeta na brasa. Ela dizia, tem gente mais precisada, eu me viro. A vergonha era um mecanismo de controle social poderoso.

Deixe-me parar por aqui, na fila do peixe de Seu Durval do Açúcar.

Antonio Samarone (médico sanitarista)

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