O Fim do Sofrimento Necessário. (por Antonio Samarone)

Antonio Samarone, 17 de Abril, 2021

Chul Han continua sendo o pensador mais instigante da pós-modernidade. O seu novo livro, 'The Palliative Society', vai fundo.

A pós democracia é paliativa, não enfrenta os conflitos, os confrontos dolorosos, não quer fazer as mudanças dolorosos.

A democracia paliativa cria uma política de positividades mentirosas, um bem-estar centrado no desempenho individual, numa sociedade da performance, numa suposta trilha para a felicidade.

A ilusória maré de um bem-estar permanente cria uma legião de deprimidos e ansiosos, sustentados pela indústria farmacêutica.

A felicidade se tornou uma obsessão. A dor, a desilusão e o sofrimento, parte da natureza humana, tornaram-se inaceitáveis.

“A ganância material da indústria farmacêutica não é a única causa desta crise, que se deve antes a uma suposição fatídica sobre a existência humana.” Chul Han

“Somente uma ideologia de bem-estar permanente pode fazer com que medicamentos originalmente usados na medicina paliativa sejam administrados em larga escala também em pessoas saudáveis.” Chul Han

“Tire o seu sorriso do caminho, que eu quero passar com a minha dor.” – Nelson Cavaquinho.

A dor foi silenciada, impedida de transforma-se em paixão, perdeu a sua força transformadora. Numa cultura de complacência, nada pode doer. É o fim das possibilidades da catarse.

A dor subsiste apenas em sua forma física, tornou-se objeto exclusivo da medicina. É o fim da dor existencial.

A cultura da complacência é a resultante da mercantilização da cultura, a sua subordinação ao gosto dos consumidores. As obras de arte se adaptaram ao mercado, para se tornarem consumíveis.

O novo livro de Chul Han é uma delícia, profundo e bem escrito.

“Pensem nas trevas e na grande friagem, Neste vale onde ecoam as lamentações.” Brecht.

Antonio Samarone (médico sanitarista).

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