Toda Morte é Prematura. (por Antonio Samarone)

Antonio Samarone, 18 de Abril, 2021 - Atualizado em 18 de Abril, 2021

Toda Morte é Prematura.
(por Antonio Samarone)

Na entrada do “Whiskynão”, encontrei um velho amigo, ex-Vereador do Aracaju, e tivemos a mesma reação de alegria: até agora, escapamos! O nosso medo disfarçado da morte foi explicitado às gargalhadas.

A razão deseja a imortalidade.

Trezentos e setenta mil óbitos chocam menos que a morte trágica de um amigo. Na verdade, o inaceitável é a própria morte. O nosso ressentimento contra a finitude está enraizado no inconsciente.

“A morte propriamente dita é a própria morte.” - Heidegger

Somos a única espécie que sabe previamente que vai morrer. Os outros animais só descobrem no corredor da morte, nos instantes finais.

O instinto de sobrevivência é inato, a morte é aprendida. Logo cedo aprendemos que somos mortais, por “ouvi dizer”. Essa certeza incômoda é aprendida e precisa ser afastada da nossa mente. No fundo, desconfiamos desse destino e temos a ilusão que escaparemos.

É trabalhosa a aceitação da verdade bíblica: “Pulvis es et in pulverem reverteris”.

Na evolução, quando o “Homo” descobriu que era mortal, inventou as religiões e passou a enterrar os mortos. Somos “seres humanos” porque enterramos os mortos. Enterrar é “Inhumar”, o inverso de “exhumar”.

O meu pai só aceitou a morte, já bem velhinho. Certo dia, me chamou num canto e revelou: “meu filho, acho que não vai ter jeito, vou morrer.” Eu perguntei curioso: como o senhor descobriu? Ele foi sucinto: “todos os meus amigos já se foram...”

Após o último suspiro, fecham-se os olhos dos defuntos, para evitar a grande inveja dos mortos pelos vivos.

A única prova de que vamos morrer é a morte dos outros. Se até agora ninguém escapou, eu não serei o primeiro. É um raciocínio lógico.

Antonio Samarone (médico sanitarista)

O que você está buscando?