Justiça e Misericórdia. (por Antonio Samarone)

Antonio Samarone, 07 de Maio, 2021

Não é exagero, eu alcancei as sombras dos ritos inquisitoriais. Claro, simbolicamente, com bonecos, fogueiras (purgatorius ignis) e suplícios.

No Sábado de Aleluia se queimavam Judeus! Cristãos-novos, marranos, hereges, em forma de bonecos. Não era o Judas, como atualmente. Era uma reprodução folclorizada dos auto-de-fé da Inquisição.

Vestiam um boneco com o Sambenito (“saccus benedictus”) de Santo André e uma carapuça. Desfilavam pelas ruas, numa carroça de burro, para exposição pública. Os estrépitos das matracas, usadas para chamar a atenção nos autos-de-fé, eram substituídos por fogos de artifícios.

À noite, um boneco, simbolizando um cristão-novo, era apedrejado, queimado e os seus bens repartidos em versos gaitosos, pelas pessoas importantes da localidade.

No Terreiro de Hosana, no açude velho, existia o desenho de um menorá na parede da sala. Eu nunca suspeitei o significado. Para Hosana, era um enfeite bonito e nada mais.

Queimar Judeus, era uma manifestação popular nos sábados de aleluia.

Poucos sabiam da existência de Judeus em carne e osso, nem tinham nada contra eles. Pelo contrário, chamar alguém de Judeu, era visto como um elogio. A queima era a manutenção de um folclore odioso.

Ao fundo do calabouço improvisado, onde o boneco seria queimado, pendurava-se num poste, um estandarte semelhante ao da inquisição.

O Santo Ofício era representado por alguém engraçado, verseiro, improvisador, apresentador de leilão, que fazia as honras da cerimônia da queima do boneco.

As heresias foram perdoadas no atacado, virou sincretismo religioso.

Não sei quando, mas os bonecos dos judeus viraram de Judas. Os escolhidos para a execração pública passaram a ser os políticos ou pessoas malvistas pelas comunidades.

Essa manifestação “folclórica”, arcaica, de queimar Judeus, acabou!

Ainda bem!

Antonio Samarone (médico sanitarista)

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