Cenários Pós Pandêmicos (por Antonio Samarone)

Antonio Samarone, 27 de Junho, 2021

A humanidade nunca experimentou um isolamento social tão longo, contrário a condição humana.

A desobediência sanitária ao isolamento é uma forma de resistência natural, tratada pela mídia como irresponsabilidade.

Viver é estar entre os homens” (inter homines esse).

As consequências psicológicas, comportamentais e culturais desse longo isolamento, em especial para os idosos, serão profundas.

A virtualidade das redes sociais tornou-se a realidade possível. O isolamento, que destrói a esfera comum e impede a ação humana,
é um pré-requisito da tirania.

O Pós-Pandemia não acena com a liberdade.

“O que nos salva da futilidade da vida é o desejo de estar vivo promovida pela ação política, cujo impulso brota do desejo de estar na companhia dos outros, do amor ao mundo e da paixão pela liberdade.” – Hannah Arendt.

O totalitarismo é a destruição da política. Enquanto a monarquia funda-se na honra e a república na virtude, o totalitarismo se assenta no medo.

Para Teseu, fundador de Atenas, o que permitia ao homem comum, ao jovem e ao velho, suportar o fardo da vida: “era a pólis, o espaço dos livres feitos e das palavras vivas do homem, que poderiam dotar a vida de esplendor”.

O isolamento social prolongado é uma matriz de transtornos mentais, já observados.

As sequelas orgânicas e o longo período de recuperação para os que tiveram as formas graves da enfermidade, exigem do sistema de saúde uma atenção especial.

Entretanto, aqui surge um risco iatrogênico: alterações comportamentais, decorrentes das transformações sociais em curso, também serão medicalizadas, tratadas quimicamente. Aliás, já está ocorrendo.

O sofrimento pelo qual a sociedade é a responsável, será privatizado e psicologizado. As condições sociais serão ocultadas.

Devem-se melhorar a alma!

A psicologia positiva encarregar-se-á da motivação. Nada de raiva, descontentamento com as condições sociais, a saída encontra-se no esforço de cada um, em apreender o caminho da vitória.

“Numa sociedade onde o bem-estar é obrigatório, a felicidade pode ser medicamente produzida. Drogas usadas paliativamente, serão de uso corrente por pessoas saudáveis.” Chul-Han

O Pós-Pandemia não promete bem-estar e felicidade.

Antonio Samarone (médico sanitarista)

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