A Medicalização dos Milagres. (por Antonio Samarone)

Antonio Samarone, 15 de Julho, 2021

Em 1949, a OMS inventou o “Direito a Saúde”. Com o tempo, o Direito a Saúde foi reduzido ao direito à assistência médica. Os médicos tornaram-se os gestores oficiais do corpo.

A medicina ampliou o seu campo de atuação. Além de tratar os doentes, a medicina promulgou regras sobre os comportamentos, censurou os prazeres e normatizou o cotidiano.

A medicina aprofundou o seu conhecimento sobre o funcionamento do corpo, com os avanços da biologia e das técnicas de imagens. Ela reivindicou o protagonismo sobre o aumento na longevidade humana (há controvérsias!). A vida foi medicalizada.

A medicina assumiu a orientação exclusiva do método científico, incorporando os modelos matemáticos da estatística nos ensaios clínicos, com ênfase na probabilidade. Nasceu a chamada “medicina por evidência”.

O predomínio do uso dos dados estatísticos sobre a conduta médica, resultou em avanços e retrocessos. A probalidade é um princípio dos grandes números, dos estudos populacionais, possibilitou a construção de protocolos mais objetivos, Entretanto, quando aplicada a casos individuais, ignorando as especificidades, pode levar a erros inaceitáveis.

Uma parte dos eventos estudados pela estatística está fora da curva normal, são eventos improváveis, novidades, frequentes nos fenômenos biológicos.

Por exemplo, a origem da vida a partir da matéria inorgânica foi uma ínfima improbabilidade dos processos inorgânicos. Como foi improvável o surgimento da Terra, do ponto de vista dos processos do universo.

A evolução da vida humana a partir da vida animal, foi outra improbabilidade bem sucedida.

A teoria da evolução (base da biologia) funda-se nas mutações favoráveis, que são improbalidades felizes, que tornam as espécies mais competitivas no processo de seleção natural.

O novo sempre acontece em oposição à esmagadora possibilidade das leis estatísticas e à sua probabilidade que, para todos os fins práticos e cotidianos, equivale à certeza.

Ocorre que o novo é um evento possível, natural e inesperado. Mas que sempre acontece.

Esses eventos inesperados, fora da curva normal dos grandes números, é o que os metafísicos chamam de milagres. Nesse sentido, os milagres continuarão acontecendo nos processos de adoecimento. Por isso a medicina continuará “ciência e arte”, como enunciou Hipócrates.

A medicina mercantil, aflita pelos lucros, acha essa discussão bizantina, perda de tempo, viés redutor da produtividade.

A medicina centrada apenas na ciência é incapaz de entender os casos que evoluem fora da lógica matemática. Como esses casos existem, e o método científico não os engloba, sobra espaço para a sobrevivência das explicações metafísicas.

Nesse sentido, os milagres existem, continuarão existindo, e fazem parte dos fenômenos naturais. Eventos fora da curva fazem parte da normalidade.

Se esses eventos improváveis forem considerados milagres, eles continuarão existindo, sobretudo nos fenômenos envolvendo os seres vivos. A medicina opera com manifestações ricas em improbabilidades.

“Na medicina, nem nunca, nem sempre”. - Avicena.

Antonio Samarone (médico sanitarista)

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