Coisas que se Aprendem... (por Antonio Samarone).

Antonio Samarone, 19 de Julho, 2021

Aprendi a andar aos nove meses. Cansado de engatinhar, coloquei a mão no pé do umbigo e me levantei sozinho. Foi a parte difícil. Depois fiquei passando de um lado para outro, num corredor estreito.

Já grandinho, deu vontade de aprender a nadar, andar de bicicleta e dançar.

Nadar, ensinaram-me com a delicadeza itabaianense. Me empurram do paredão do açude velho, num local fundo. E começaram a gritar, “nada para não morrer”. Eu gritava desesperado, com a água invadindo os gorgomilos: Eu não sei nadar, filhas da puta, me ajudem... A gargalhada corria solta. “Saaabe, deixe de ser mole, nadar todo mundo sabe. Já se nasce sabendo.”

“É dessa massa que nos somos feitos, metade de indiferença e metade de ruindade” – Saramago. Em Itabaiana, a metade da ruindade é um pouco maior.

Pelo sim pelo não, escapei. Em pouco tempo, aprendi a nadar de braçada, cachorrinho e de costa. Ainda disputava quem tinha mais fôlego e demorava mais sem respirar debaixo da água.

Saudades do Açude Velho. Mamãe lavando roupa na beirada e eu me danando no banho.

Aprender a andar de bicicleta teve um obstáculo: nem eu nem meus amigos tínhamos bicicleta. Alugar a Zelito, era caro. Criei coragem e fui pedir emprestado a bicicleta de um tio. Uma velha “Merck Suisse”, (Mercswiss) de aro longo e freio no pedal. Ele não fez cara bonita, mas emprestou.

Olhe a responsabilidade.

Peba de Seu Justino foi o instrutor. Subi, me cagando de medo, Peba deu um tanjo e ordenou: é só olhar para frente. Lá vai eu descendo na esburacada Rua da Pedreira, até me estabacar no chão. Peba advertiu-me: é assim mesmo, ninguém aprende a andar de bicicleta sem cair.

Após muitas quedas, também aprendi.

Dançar foi mais complicado. Em minha casa não tinha rádio e ninguém sabia dançar. Música eu só ouvia na semana do carnaval, tocada no alto-falante do Clube do Trabalhador (fundado pelos Comunistas). Era Claudionor Germano cantado os frevos de Capiba. Parece que só tinham esse disco.

Eu não frequentava os bailes da Atlética. Não me lembro de outros locais de dança em Itabaiana. E, acima de tudo, sempre fui desengonçado, sem ritmo e sem harmonia.

Não fui para a formatura do ginasial, para não dançar a valsa. Vê se pode, eu que não sabia dançar bolero, “dois prá-la, dois prá-cá”, ia dançar valsa. Em Itabaiana, naquele tempo, quando se concluía o primeiro grau (o ginásio), fazia-se festa de formatura. Um baile com orquestra, valsa e convite.

Concluindo, nem toco, nem danço, nem canto, mesmo achando bonito.

Dançar mesmo, só dancei uma vez, na quadrilha de São João da Escola do Padre Everaldo.

Antonio Samarone (médico sanitarista)

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