Marisqueiras do Aracaju. (por Antonio Samarone)

Antonio Samarone, 12 de Agosto, 2021

O medo de ser esquecido após a missa de sétimo dia, virou certeza. A surpresa, foi a constatação que esse esquecimento não espera pela morte.

Flanando pelos vastos manguezais da Enseada do Vaza Barris, em São José dos Náufragos, deparei-me com as marisqueiras. Me chamou atenção a idade e a tristeza daquelas trabalhadoras.

Ninguém canta, ninguém assovia. É um trabalho resignados, quase uma penitência.

Não tinha jovens. Homens e mulheres de meia idade, muitas idosas, gente sofrida, que só está ali por profunda necessidade.

Passam o dia atoladas na lama, atacadas pelos mosquitos, para ganharem uma merreca. Entregam o produto por meia pataca. Depois os atravessadores botam preço.

Em pouco tempo, quem quiser comer um refogado de aratu vai precisar pegá-los no mangue, um a um, pois aratu não se pega de rede. Depois, ter a paciência de quebrá-los, para retirar a pouca seiva daquelas pernas miúdas.

Não se pode retirar a seiva carnosa por aspiração, sugando e depois cuspindo na vasilha. A Saúde Pública recomenda a cata manual, e com as mãos limpas.

As marisqueiras estão com os dias contados em Aracaju.

O mercado será desabastecido de aratu, siri, ostra, sururu, massunim e sarnambi. Será o fim das mariscadas, festejadas pelo imortal Bocão (Rosalvo Alexandre).

Me aproximei das marisqueiras, para puxar conversa: Bom dia, gente! Elas responderam em coro, com a fala arrastada: “bom diaaaaa”. Eu sou Samarone, tenho um sítio aqui perto. A mais idosa comentou: “existia um político com esse nome”. A outra emendou: “esse já morreu”.

Tive receio de desapontá-las, e não disse que o dito cujo ainda era vivo. Continuamos a conversa.

O fim da quarentena me mostrou a beleza da vida com serenidade. Sem a busca da glória, do poder e da fortuna. Não tenho medo da morte, sobretudo depois que acabaram com as penas do Inferno.

Mesmo mais sereno, não me tornei indiferente ao destino da humanidade. Não desisto de batalhar por minhas crenças.

Puxei ao meu avô materno, possuo muita alma. Me interesso por quase tudo, de forma dispersa. Se soubesse poetar, faria versos para as marisqueiras. Mas, poesia é coisa rara e um dom quase extinto.

Passei a achar que a burrice é eterna, infinita, não adianta perder a paciência. A burrice é cósmica, incompreensível. Só a rotina me aborrece. Busco velhas novidades, como disse o poeta.

Entrei em acordo com a minha insônia. Aceitei não a matar com medicamentos, para ela ficar em silêncio. Ela aceitou! Fiz uma parceria com a insônia. Quando ela se distrai, eu durmo um pouco, sem ela vê.

Para preencher a vacuidade do espírito, estou passando o tempo com ocupações supérfluas e saborosas.

Antonio Samarone (médico sanitarista)

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