A Raiva Esquecida. (por Antonio Samarone)

Antonio Samarone, 06 de Outubro, 2021

A Saúde Pública precisa se renovar, para enfrentar as novas epidemias.

A crise climática mexeu com a virosfera. O homem desintegrou os ecossistemas naturais. Seres que lá habitavam emergiram, entre eles novos vírus, que encontraram uma pastagem com bilhões de humanos devorando o planeta. Um prato cheio!

Os “ecochatos” românticos estavam certos!

As zoonoses (doenças de animais transmitidas ao homem) tornaram-se uma grande ameaça. A Saúde Pública as conhece e controla muitas delas. Entretanto, surgiram novas, decorrentes da crise climática. (HIV, Ebola, MERS, SARS, Gripe Aviária, SARS-Covid-2)

Entre as antigas zoonoses, a raiva recebe um controle permanente. O que restou da velha Saúde Pública, tem sido anonimamente eficiente. A raiva quase foi esquecida.

A raiva é uma zoonose viral que ocorre em mamíferos de cascos fendidos (boi, cavalo, porco...), transmitida por morcegos hematófagos. Em humanos, causa uma encefalite progressiva, com letalidade próxima a 100%. O que nos protege, é a sistemática vacinação antirrábica dos cães e gatos, realizada pela Saúde Pública.

Ontem, encontrei competentes e dedicados agentes de endemias vacinando no bairro São José dos Náufragos, em Aracaju.

Como velho sanitarista vencido, mas não convencido, foi esperançoso encontrar esses agentes da antiga saúde pública, de porta em porta, vacinando até “cão sem dono”, cumprindo zelosamente uma missão de impacto positivo na saúde da população.

A raiva é um modelo arqueológico das novas epidemias virais.

Aristóteles conhecia a transmissão da raiva. Hipócrates descreveu os seus sintomas. A doença foi descrita na Ilíada: Homero comparou o invencível Heitor com um cão raivoso. Os gregos chamavam a raiva de hydrophobia.

A Peste Negra e a Gripe Espanhola também foram zoonoses.

As zoonoses podem ser causadas por vírus, bactérias, fungos, protistas, príon e vermes. A doença da vaca louca é causada por um príon.

O século XXI desmontou os modelos tradicionais da epidemiologia!

A previsão de crescimento das doenças crônicas degenerativas, condicionadas pelo envelhecimento, era óbvia, entretanto, a queda das doenças infectocontagiosas e carências não se confirmaram.

O quadro sanitário é mais complexo: o crescimento das causas externas (homicídios, suicídios, acidentes) já era conhecido no final do século XX.

As novidades epidemiológicas do século XXI ficaram por conta da explosão dos transtornos mentais (depressão, ansiedade), relacionadas com o novo modo de vida das sociedades do desempenho e a emergência de nova doenças Infecciosas, sobretudo as virais, decorrentes da crise climática.

A antiga Saúde Pública, desmontada pelo complexo médico industrial e pela medicina assistencial privada, tem novos desafios.

O consumo de procedimentos médicos não responde as exigências sanitárias postas pela pós-modernidade e pela crise climática. Aliás, já não respondia.

Acho que a Pandemia deixou claro: urge mudanças! Qual é a Saúde Pública que precisamos?

Antonio Samarone (médico sanitarista.

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