Quase Memória. (por Antonio Samarone)

Antonio Samarone, 17 de Outubro, 2021

Totonho de Bernardino, meu avô, viveu sem nunca ter consultado um médico. Era o tempo do Carrancismo. Entretanto, a sua biblioteca possuía um exemplar, muito consultado, do Dicionário de Medicina Popular, de Chernoviz.

A biblioteca de Totonho era repleta de literatura de cordel, que ele cantava em voz alta para deleite dos netos. Eu aprendi a ler com o cordel. Lembro-me da vasta coleção de Almanaques da Biotônico Fontoura e de alguns exemplares da “Seleções do Reader's Digest”.

Não sei que fim levou esse acervo.

O Dicionário de Medicina Popular é uma obra do médico Piotr Czerniewicz (1812 – 1881), que fugiu da Polônia em 1931 após a invasão russa. Refugiou-se na França. Colou grau em medicina, em Montpellier. Em 1940, migrou para o Rio de Janeiro, em busca de fama e fortuna.

Chernoviz foi admitido na Academia Imperial de Medicina, escreveu na imprensa médica e foi amigo e protegido do Dr. Francisco Xavier Sigaud, o fundador da Academia. Mesmo assim, teve dificuldades em sobreviver da clientela, em sua clínica.

A ideia de escrever um dicionário de medicina foi a salvação. Em pouco tempo, todo fazendeiro no Brasil tinha um exemplar em casa. Chernoviz não foi um charlatão. Possuía uma sólida formação científica, para os padrões da época. Era uma personalidade intelectual, científica e moralmente respeitável.

O Dr. Pierre Louis Napoleon Czerniewiz (nome francês), retornou à França em 1855, onde montou uma editora para publicação do seu Dicionário em português, e vende-lo no Brasil. Além do Dicionário, o Dr. Pedro Chernoviz (nome brasileiro), também publicou o Guia Médico do Brasil, com os tratamentos.

Pedro Chernoviz faleceu em 1881, em faustosa propriedade campestre, em Paris.

Uma pena que deram fim ao exemplar do meu avô. Eu continuo consultando Chernoviz, para fins de pesquisa histórica. Vale a pena.

Antonio Samarone (médico sanitarista)

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