O Bom Cacique. (por Antonio Samarone)

Antonio Samarone, 06 de Novembro, 2021

“De repente me acordei com a surpresa/ Uma esquadra portuguesa veio na Praia atracar/ Da grande Nau, um branco de barba escura, vestindo uma armadura/ apontou para me pegar/ Meio assustado dei um pulo lá da rede/ Pressenti a fome e a sede, eu pensei vou me acabar/ Me levantei de borduna na mão, aí senti no coração/ O Brasil vai começar.” – verso de Chegança.

A crise climática deu força e importância às Nações Indígenas. O seu modo de vida nos interessa.

Em Sergipe, resta uma nação indígena, os Xokós!

A importância ambiental dos índios é notória. Parte da caatinga sergipana já virou lenha, foi devastada. Restam a terra dos Xokós, a reserva de Angico, criada pelo Governador Marcelo Déda, e algumas fazendas de proprietários conscientes da questão ambiental. São poucos!

Historicamente, Sergipe é uma terra que deve a sua existência aos Tupinambás, seus primeiros ocupantes. Sergipe desprezou os índios.

Ainda estudante, acompanhei a luta dos índios Xokós, liderados por Apolônio, para a reocupação da Ilha de São Pedro, de onde tinham sido expulsos pelos fazendeiros.

Apolônio quando morreu, não era mais o Cacique dos Xokós.

Visitei-o na Tribo, junto com a Expedição Serigy, no final da sua jornada. Senti a melancolia do fim, de quem estava no ocaso.

Se você quiser saber como um pobre está vivendo, não pergunte, se puder abra a sua geladeira. Foi o que fiz na visita à casa do ex Cacique dos Xokós. A geladeira estava vazia, com duas garrafas de água. Nada, nem ovos.

O Cacique Apolônio morreu muito pobre, em maio de 2019, aos 58 anos. Parecia ter noventa.

Apolônio morreu sem desconfiar que os civilizados iriam precisar dos índios, para adiar o fim do mundo.

Apolônio não alcançou a altivez de Txai Suruí falando para os Chefes de Estado, em Glasgow. “Pregou entre os doutores.”

O Poder Público em Sergipe, deve uma homenagem ao Cacique Apolônio, guerreiro da paz.

Aracaju já batizou uma localidade em homenagem ao Índio Palentim, que nunca existiu, mas esqueceu de Apolônio.

É essa a cobrança...

Antonio Samarone (médico sanitarista)

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