Tempos de Baixeza e Picardia. (por Antonio Samarone)

Antonio Samarone, 17 de Novembro, 2021



Às vésperas do feriado da República, fui à minha peixaria preferida, aqui no Mosqueiro. Deparei-me com uma situação inusitada e reveladora dos tempos sombrios em que vivemos.

Do lado interno do balcão, um freguês sem camisa falando alto e fazendo exigências descabidas, botava defeito nos peixes. Abria e fechava o freezer do estabelecimento à procura de uma mercadoria à altura de sua importância social.

O proprietário assistia calado à performance do grosseiro freguês.

Com a minha chegada, o tal sujeito mudou o foco da sua fala. Imotivadamente, disparou: “eu odeio comunista, não me sinto bem com na presença deles. Comunistas fedem.”

Eu pensei, só pode ser comigo, que acabei de chegar.

Fiquei na minha. Calado cheguei, calado permaneci. Não botei a carapuça! Entretanto, ele não parava de ofender o alvo.

Fisicamente, era um sujeito deformado: atarracado, sanhudo, ventre flácido, olhar inexpressivo e uma corrente grossa de ouro no pescoço, como sinal de riqueza. Ele estava acompanhado, com a família. Fora da Peixaria, um carro do ano com som em alto volume, tocava músicas bregas.

O sujeito era de uma penúria moral acintosa.

Confesso, em certo momento os meus instintos Itabaianenses afloraram. O cão atentou: basta um sopapo no pé do ouvido. Basta um! Mas a vida já me deu prudência: Nada! Deixe esse verme falar só. Lembrei-me dos conselhos de mamãe.

O elemento foi embora. Não sei quem era e nem quero saber.

Observei um detalhe: no vidro traseiro do carro dele tinha um velho adesivo: “O Brasil acima de todo e Deus acima de todos.” Claro, uma coincidência.

Outro fato estranho: depois da saída do valente, ninguém na Peixaria tocou no assunto. Era como se nada tivesse acontecido.

O povo em sua sabedoria, sabe o tem e o que não tem importância.

Deus salve o Brasil!

Antonio Samarone. (médico sanitarista)

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