A Eterna Vigilância. (por Antonio Samarone)

Antonio Samarone, 05 de Dezembro, 2021

O primeiro iluminismo sacrificou o sagrado em nome da razão. O segundo, está substituindo a razão pelos dados.

O atual iluminismo é o tempo do “puro conhecimento”, das evidencias movidas pelos dados. A linguagem foi esvaziada e as coisas perderam o sentido. É um novo niilismo.

O big-data substituiu o anjo da guarda. Antes, a prestação de contas era no juízo final. Hoje, a vigilância é permanente e de nada esquece. Presta-se conta a si próprio. É a sociedade do desempenho.

A Era digital acredita na mensurabilidade e na quantificação da vida. Tudo no corpo pode ser medido e quantificado em tempo real. Entretanto, os números não respondem à questão central: quem sou eu?

“Os números não contam nada sobre o Eu. O Eu se deve a uma narrativa. Não é a contagem, mas a narrativa quem conduz ao encontro de si e ao autoconhecimento”. Chul Han

Por outro lado, o big-data acessa ao Id freudiano, tornando-o passível de controle direto, sem passar pelo Ego. O inconsciente das nossas ações passa a ser explorado.

O big-data informa sobre nós mesmos, coisas que não sabíamos, nem ao menos desconfiávamos. É o fim do inconsciente secreto e quase soberano.

O professor Santiago me contou uma história entranha:

“Há muito, deixei de sonhar com vacas magras e vacas gordas, como José do Egito. Os sonhos perderam a simbologia. Ao dormir, os sonhos prosseguem na mesma linha de pensamento da vigília, e ao acordar, o pensamento prossegue com os sonhos, sem uma interrupção significativa.”

“O sonho interpõe-se entre o sono fracionado com vigílias frequentes, naturalmente, de forma desapercebida. As informações do noticiário da TV ligada, continuam sendo acompanhadas indiferentemente, se dormindo ou acordado. A mente está sempre on-line.”

O professor Santiago é um homem culto.

O inconsciente também é histórico. Freud precisava renascer, para interpretar os atuais sonhos ou criar outras técnicas de acesso.

Eu pensei: será se inconsciente de Santiago ficou exposto, visível a olho nu? Os sonhos perderam o seu lado onírico!

Tentei explicar ao professor: a sua eterna vigilância deve-se ao medo da morte. Ele reagiu: “não, não acredito. Temo mais as demências e a perda de autonomia do que a própria morte.”

Eu sugeri ao professor Santiago que procurasse o Dr. Átalo Crispim. Só a homeopata, para entender essas doidices novas.

Eu quero continuar com a mente funcionando à moda antiga, de forma analógica, sonhando com irrealidades fantásticas, de preferência, que ninguém saiba interpretar.

Antonio Samarone (médico sanitarista)

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