A Sorte continua existindo. (por Antonio Samarone)

Antonio Samarone, 21 de Dezembro, 2021 - Atualizado em 21 de Dezembro, 2021


 

Uma divindade do paganismo romano que ainda sobrevive é o destino. Chamada por eles de Fortuna, uma deusa que distribui aletoriamente a sorte e os infortúnios entre os humanos.

A deusa romana Fortuna tem os olhos vendados, para evitar preferencias. A sorte continua sendo distribuída ao acaso, aleatoriamente.

Os esforços milenares do cristianismo, da ciência e da razão para eliminarem a importância da sorte na vida humana, não foram suficientes. A sorte (e o azar) continuam vivos e fogosos.

Quando alguém se dar mal na vida, botamos o carimbo: “esse sujeito nasceu sem sorte.”

Cada um é para o que nasce. “Nossos destinos foram traçados na maternidade”, canta Cazuza.

Em Itabaiana existia a crença na roda da Fortuna (rota fortunae), uma referência à natureza caprichosa do destino. Quem hoje está em cima, amanhã desce. A roda gira aleatoriamente, mudando assim a posição dos homens que se encontram sobre a roda e dando-lhes boa ou má sorte.

O homem não pode fugir ao seu destino. Temos uma linha da sorte na mão, que pode ser lida.

Na Idade Moderna, o iluminismo deu superpoderes ao homem, ele tornou-se livre, dono do seu destino. O humanismo, fundado na razão, prometeu a libertação do homem dos deuses e da natureza. O livre arbítrio tornou-se absoluto.

Hoje sabemos que a modernidade não cumpriu o prometido.

Maquiavel libertou os Príncipes dos caprichos da deusa fortuna, ao atribuir a “Virtu” (dotes e talentos), a capacidade de superar os infortúnios na luta pelo Poder.

Maquiavel era republicano e criou o pensamento político moderno. Antes o poder vinha dos deuses, hoje o povo acredita que vem dos demônios. Exagero!

Maquiavel não desprezou o papel da Fortuna, apenas relativizou o seu determinismo. O Príncipe precisa de prudência, para enfrentar os desígnios da deusa imprevisível. Prudência são duas virtudes: a cautela e a audácia.

Para os Gregos a coragem era uma dádiva dos deuses, para os Cristãos a dádiva é a graça. Como dizemos: com as graças de Deus.

O Príncipe deve usar ora a cautela ora a audácia, dependendo da necessidade. Em dúvida, use a audácia, ensinou Maquiavel. Ocorre que a natureza humana é limitante. Os de índole audaciosa dificilmente serão cautelosos, e vice-versa.

A disputa pelo Governo de Sergipe em 2022, pode colocar frente a frente dois candidatos a Príncipe, com índoles diversa: um excessivamente audaz e o outro extremamente cauteloso.

Os dois são “malquiavélicos” e usarão os seus dotes. Talvez a deusa Fortuna (as circunstâncias) tenha o papel decisivo no desempate

Entre os grandes filósofos, dois viraram adjetivos: platônico e maquiavélico. Mesmo que o caboclo nunca tenta lido nada de Maquiavel, sabe o que significa ser maquiavélico. E não é coisa boa.

Como se diz em Sergipe: em qual porta o cavalo selado vai passar?

Antonio Samarone (médico sanitarista)

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