Gente Sergipana – Carlos Garcia (por Antonio Samarone)

Antonio Samarone, 29 de Dezembro, 2021


 

“Carlos Garcia, um líder sem vaidades”.

A política em Sergipe era reservada aos Senhores das Terras, latifundiários, e donos de engenhos. Aos donos do gado, da gente e dos canaviais. A chamada oligarquia rural. Senhores de baraço e cutelo.

Porém, Sergipe tem os seus mistérios.

Fugindo à regra, despontou em Rosário do Catete uma família de classe média poderosa. Seu Antonio Garcia, músico e pequeno comerciante, e Dona Toinha, trouxeram ao mundo filhos poderosos. Se dizia na brincadeira: uma oligarcia.

Três governadores: Luiz Garcia em Sergipe, José Garcia no Mato Grosso e Gilton Garcia no Amapá. Não é pouco.

Um velho Comunista, Robério Garcia, stalinista, amante da URSS e desportista, a quem o futebol sergipano muito deve. Implantou o futebol profissional no Estado.

Um médico socialista, cristão e poeta, Antonio Garcia, fundador da Faculdade de Medicina de Sergipe.

Finalmente, o mais talentoso e menos conhecido, Carlos Garcia. Advogado, intelectual, jornalista, agitador cultural e dirigente do Partido Comunista (PCB), em Sergipe.

Carlos Garcia formou-se em Direito na Bahia. Retornou à Sergipe durante o Estado Novo, e assumiu a frente dos movimentos sociais e da luta pela liberdade e igualdade. Diretor do Jornal “O Povo”, advogado das causas populares.

Casou-se em 1940, com a cirurgiã dentista do IAPC, Helena Domingues, irmã do médico e deputado estadual constituinte pelo PCB, Armando Domingues. Carlos e Helena tiveram quatro filhos: Vasco, Luiz Carlos, Maria Helena e Vera. Vasco é um personagem de Veríssimo, em “O Tempo e o Vento” e Luiz Carlos uma homenagem ao Cavaleiro da Esperança. “Vasssco soa como uma chicotada.”

Armando Domingues clinicou em Itabaiana.

Em 1947, Carlos Garcia se elegeu o Vereador mais votado de Aracaju.

Em 29 de novembro de 1947, a polícia do Governador José Rollemberg Leite, matou a tiros o carpinteiro, negro, pai de 12 filhos, Anísio Dário, durante uma manifestação contra a cassação do PCB, na Rua João Pessoa.

O Governo, estupidamente, acusou Carlos Garcia pelo assassinato.

O Poeta José Sampaio registrou o bárbaro crime num poema: “Canto do Negro Morto”.

O Partido Comunista (PCB) foi cassado pelo TSE em 07 de maio de 1947, acusado de receber o “ouro de Moscou”.

Em 1948, Carlos Garcia se desligou do PCB, numa longa carta, onde detalha de forma objetiva as mazelas do stalinismo no PCB sergipano. Talvez seja o documento mais importante da história do movimento comunista em Sergipe, desconhecido de muitos pesquisadores.

Carlos Garcia, perseguido, injustiçado, precisou sair de Sergipe para sobreviver. Foi morar e criar a família no Rio de Janeiro, sem nunca ter abandonado a sua crença na luta por justiça e liberdade.

A grande tragédia.

Carlos Garcia perdeu a esposa Helena e a filha mais nova, Verinha, num pavoroso acidente na Avenida Niemeyer, no Rio de Janeiro. Escaparam nesse mesmo acidente, Ninota Garcia, esposa do Governador de Sergipe, que dirigia o automóvel e a outra filha de Carlos, Maria Helena.

Na maturidade, Carlos Garcia se converteu ao cristianismo.

Carlos Garcia nasceu em 09 de março de 1916, em Rosário do Catete, Sergipe, e faleceu em 19 de fevereiro de 1971, no Rio de Janeiro, aos 56 anos.

Na lápide do seu túmulo, no Cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro, está escrito: Carlos Garcia inesquecível, amou a sinceridade, a verdade e sobretudo a vida”.

Um grande sergipano.

Antonio Samarone (médico sanitarista).

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