OLHAR DIALÉTICO DA EMERGÊNCIA CLIMÁTICA GAÚCHA por Manoel Moacir C. Macêdo; Manoel M. Tourinho & Gutemberg A. D. Guerra

Manoel Moacir, 24 de Maio, 2024 - Atualizado em 24 de Maio, 2024

Algemado em suas raízes históricas, o Brasil é um país majoritária e oficialmente cristão, com números que beiram os 90%. Isso não é pouco, sendo o país com maior percentual de crentes do planeta, pois 81% desse universo declaram acreditar em Deus. A utopia de “amar ao próximo, como a si mesmo” se expõe à pro-sociabilidade como caminho para superar as desigualdades sociais.

A expressão de solidariedade do conjunto do povo brasileiro à tragédia climática no estado do Rio Grande do Sul não será suficiente se permanecer limitada àquele estado, pois exige uma profunda revisão da postura nacional frente às necessidades de uma justiça climática e ambiental. A surpresa não é somente com as históricas secas do Nordeste brasileiro, onde sessenta milhões das filhas e filhos do mesmo Deus das gaúchas e gaúchos padecem secularmente, não pelo excesso, mas pela carência de chuva, alimento, terra, moradia, educação e saúde. A pauta concentra nas ações dos responsáveis pela coletividade na prevenção, inteligência e contenção de ameaças de tragédias como a atual. Conhecida a liberalidade das restrições ambientais e flexibilidade a qualquer produção agrícola por entes municipais, estaduais e federal, sem considerar a nossa sociedade profundamente marcada pela desigualdade.

              Não se trata de fazer comparações entre quem sofre mais ou menos, mas tornar claras as responsabilidades de quem deve cuidar das pessoas por igual. Não está em julgamento o eventual “choro dos alvos e gordos” e nem os “sofreres dos esquálidos pretos e pardos”. Uns do Sul, outros do Nordeste, mas todos de uma mesma geografia reencarnatória. Na dialética cristã não pode prosperar o separatismo por cor, raça, procedência nem por opção sexual. Ao contrário, deve avançar para mais integração de um só povo pretensamente ungido como irmãos pelo sinal da Santa Cruz. Aqui se diz que “Deus é brasileiro, coração do mundo e pátria do Evangelho”. A igualdade em sua amplitude cristã deve ser a âncora dos povos onde quer que estejam. Sinal igual de integração deve ser dado àqueles modos de produção que expressam a suavização das desigualdades sociais, afastando antigas e novas marginalizações fincadas na distribuição da riqueza.

Sul e Nordeste de um país continental como o Brasil, expressam contingências sociais distintas. História, sociologia, antropologia, economia, política e religiosidade, são dialeticamente opostas. No primeiro, simplificadamente, os solos são férteis, a maioria da gente alva e o sol generoso. No segundo, a aridez, a gente preta e tostada pelo sol cáustico. No Sul, é marcante a influência dos imigrantes europeus brancos e livres, no Nordeste, os autóctones e pretos por muito tempo escravizados. Não são determinismos históricos, mas situações circunstanciais, regidas pela lei moral de uma duvidosa concepção de progresso.

Considerando o PIB - Produto Interno Bruto, o Rio Grande do Sul é o quinto estado mais rico entre as vinte e sete unidades federativas do Brasil. Similar opulência se verifica na produção agropecuária. Esses índices projetam o Brasil como a nona economia global. Essas unidades federativas não são similares nem no IDH – Índice de Desenvolvimento Humano, nem no PIB e menos ainda na distribuição da riqueza. Existe um persistente fosso de bem-estar entre eles. Como está sendo manejada essa riqueza? pergunta-se. De onde vieram os “homens sem-terra para as terras sem homens” quando da ocupação subordinativa da Amazônia? A unidade recai compulsoriamente, nos cuidados do estado, com o povo varonil do Norte ao Sul, do Leste ao Oeste de um único país. Não é justificável e nem moralmente aceitáveis tão distintos acolhimentos em tragédias, tal qual as enchentes e as secas, de um mesmo povo. Este é um pecado capital que merece a excomunhão cristã.

No senso comum predominam, pelos que muito têm, o sentido do Estado como estrutura degenerada, corrupta e desprezível ao desenvolvimento. Diferente dos que pouco possuem, que colhem benefícios do Estado como o único alívio às necessidades básicas do viver como saúde, educação e moradia, entre outros direitos sociais e constitucionais. Na práxis são letras mortas, qualificadas como expectativas de direitos. O caso da tragédia do Rio Grande do Sul é uma inexorável evidência. De imediato os três poderes da República agiram e colocaram em ação as suas organizações e a soma de sessenta bilhões de reais. Outros privilégios por certo advirão, a exemplo de anistias e subsídios.

Na versão cristã não cabem discriminações perante as tragédias, mas perdão, compaixão e solidariedade como bálsamos às dores e feridas, como no caso da tragédia gaúcha, com mais de uma centena de mortos, outro tanto de desaparecidos, e mais de três centenas de municípios em estado de calamidade pública. Os cristãos, pela via da espiritualidade, acolhem livre de dogmas, o que reza a lei moral da destruição: “é necessário que tudo se destrua para renascer e se regenerar” e mais, “as desigualdades das condições sociais não é uma lei natural, mas é obra do homem e não de Deus”.

Ao final, existem outras possibilidades de interpretações sobre os fenômenos climáticos a ser urgentemente levadas em conta. Os astrofísicos e pesquisadores sobre o clima têm alertado com frequência sobre a movimentação dos rios voadores e as recentes catástrofes. Afirmam ainda que outras poderão acontecer como consequência da intervenção humana no planeta, mas isso deixamos em aberto para uma abordagem mais específica, reunindo os dados que justificam essas previsões.

 


Os autores, são engenheiros agrônomos, cristãos e respectivamente PhDs pela University of Sussex, Inglaterra; University of Wisconsin, Estados Unidos; e École des Hautes Études em Sciences Sociales, França. 

 

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