RAIMUNDO DE DARINHA por Manoel Moacir Costa Macêdo

Manoel Moacir, 06 de Novembro, 2020 - Atualizado em 06 de Novembro, 2020


Naquele tempo e lugar, éramos identificadas pela profissão, filiação, residência ou algum destacado feito. O nome era alcunhado pela sonoridade e vocabulário local. Únicos e próprios daquele canto. Aos de fora pareciam estranhos e impronunciáveis, aos de dentro normais e afetivos. Essas identidades diziam como vivíamos e sonhávamos. Genuínas expressões de uma gente simples, ordeira, trabalhadora e esquecida.

Assim, foi Raimundo de Darinha. Rio-realense da prole digna e modesta de Dona Darinha e Seu José Leandro. Registrado como Raimundo Guimarães do Nascimento. Viveu a infância e juventude numa singela casa na Rua da Garapa, vizinho e afilhado de Dona Neném e Seu Marivaldo. Nasceu com a vocação para a política. Não se sabe donde veio esse sentimento, num território cativo das oligarquias, proprietários de terra e tradicionais famílias de “nomes e sobrenomes” como “Moreira, Mattos, Baptista, Valença, Carvalho e Cavalcante”. Raimundo, trazia simplesmente “Darinha”. O suficiente e nada mais. Não possuía posses, nem títulos formais e nem precisava, detinha a sabedoria do sentir para o bem comum. Como “servidor da campanha da malária e retratista de festas populares” conheceu a alma humana, sonhos e sofreres dos mais simples e invisíveis de nossa terra. Adiante, construiu com Lúcia e Laisa uma exemplar família.

Raimundo de Darinha, foi o Vereador proporcionalmente mais votado na história de Rio Real. Prefeito em duas ocasiões em específicas circunstâncias históricas. Fui seu vizinho, filho de seus padrinhos e amigo da infância ao desencarne. Uma amizade jamais interrompida nas diferentes convicções e caminhos que a vida nos conduziu. A arte do nosso encontro era o sublime olhar sobre a terra natal e os conterrâneos. Estivemos ombreados em duas disputas eleitorais. Esperança de uma ruptura na política local. Tarefa que parecia impossível: derrotar um domínio político por três décadas. Foram disputas acirradas. A simplicidade de Raimundo era o contraponto à douta oligarquia, que chegava ao sutil preconceito, abafado pela força de sua liderança aparentemente frágil, mas quando necessário, corajosa e destemida. Não deu guarida ao ódio, nem a polarização, mas ao acolhimento.  

Perdemos a primeira disputa. Tempo do vale-tudo. Eleição contada como vitoriosa, mas perdida às vésperas, na calada da noite fria e escura. O fortificante para a segunda peleja. Espetacular vitória. Raimundo não estava sozinho. Grudado na gente de baixo e rural, mais que a de cima e urbana. Nessa aventura, juntaram entre outros, Mirian de Vavá Leopoldino, Manoel de João Nonato e Moacir de Marivaldo, os rebeldes e idealistas daquela banda.

Avaliava que não se interrompia uma longa dominação política com discursos radicais e ideológicos, mas com o populismo. Raimundo, encarnava essa mensagem. Assim foi feito. Juntamos a ele e fomos vitoriosos. A proposta era “Libertar Rio Real”. Manifesto escrito há mais de três décadas. “Pela primeira vez na história contemporânea de Rio Real, tem o seu povo a oportunidade de escolher um Prefeito identificado com as aspirações da maioria, que não será manipulado pela oligarquia que nos domina há quase trinta anos”. Era verdade, mas a realidade estava assentada em arcaicas estruturas, simbolizada na cantoria que encantou os comícios, carros-de-som e alto-falantes na voz de Zé de Firme do Buril: “Raimundo de Darinha é o nome ideal para Prefeito de Rio Real, o povo querem e ninguém vão contrariar, o nosso povo vão se alegrar”.

Raimundo de Darinha conquistou dois mandatos de Prefeito Municipal de Rio Real. Elegeu o seu sucessor e deixou um legado na política rio-realense: o exemplo da força popular. Laureado no verso do conterrâneo Washington do Cordel: “ao povo soube atender [e] com sua simplicidade deixou marcante saudade”. Não acumulou dotes, fortuna e nem enriqueceu parentes e amigos. O que a política lhe proporcionou, ao povo retornou. Também não conseguiu “libertar a nossa terra”. A prática política em seus códigos e tempos próprios, abriga ou rejeita os seus afins. As propostas libertárias não caducaram, permanecem atualizadas nas carências e desigualdades, como a “criação de emprego e melhoria de renda e um plano diretor de expansão urbana”. Em tempo de eleição, ao gestor público é esperado o cuidado integral com as pessoas, principalmente as vulneráveis e fragilizadas. Outros Raimundos haverá de renascer piedosos, solidários e fraternos, seja “de Darinha, dos Santos, de Jesus ou de Deus”.

Manoel Moacir Costa Macêdo, o Moacir de Marivaldo, é engenheiro agrônomo e advogado

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