FURA-FILA BRASIL

Manoel Moacir Costa Macêdo

Manoel Moacir, 29 de Janeiro, 2021 - Atualizado em 29 de Janeiro, 2021

​Chama atenção o espanto sobre os “fura-filas” no uso prioritário da vacina contra a Covid-19 no Brasil. Sejamos honestos. Qualquer observador com relativo senso, não tem surpresa no que acontece, aconteceu e acontecerá. Privilégios na apropriação das coisas públicas por privados, familiares e pessoais qualificam a história brasileira. Realidade marcada pela degradante colonização por exploração e escravidão negra. Sociedade segmentada na origem por “fura-filas” entre senhor e escravo, brancos e pretos, poderosos e subalternos, atualizada na persistente e vergonhosa desigualdade social. Favelados e endinheirados, ricos e miseráveis, visíveis e invisíveis e “com quem está falando”, entre outras assimetrias. Distinções apenas vocabulares. Essência atualizada da captura do Estado.

A novidade seria o contrário e mereceria aplausos: a vacina foi distribuída de forma justa e igualitária aos merecedores. O faz-de-conta dessa corrupção pelos situados na escala superior da pirâmide da distribuição de renda, a exemplo da amorfa classe média, mereceram destaque na imprensa: “caso alguém se disponha a apurar como está a vacinação contra a covid-19 município por município vai descobrir que muita gente que não era prioridade já se vacinou”.

Uma ingênua assertiva, talvez uma comportada denúncia sobre os tradicionais “fura-filas”, abafados pelo silêncio obsequioso dos cúmplices e a certeza da impunidade. Para esses, a ética não corrige os mal feitos. Temores não existem em ser do bem ou do mau. Também não se dobram pela seletiva punição do direito e menos ainda pelos efeitos da moral. Para o pacifista negro americano Martin Luther King, preocupa o silêncio dos bons, perante os gritos dos audaciosos e arrogantes. Não é por alívio e necessidade que os “fura-filas” pisam e esmagam os justos e merecedores do imunizante, mas pelos costumeiros privilégios e vantagens, protegidos pelo inescrupuloso “jeitinho brasileiro”. Sempre foi assim e nada acontecerá. Um desdém à vida dos expostos à moléstia, dos pobres e invisíveis, dependentes dos cuidados morais do Estado. Nenhum drama de consciência, nem mesmo a jura de pecado na majoritária sociedade cristã. Os interesses sobrepõem as culpas perante o Além. Um escândalo sucede outro e tudo irá ao esquecimento.

Os “fura-filas” em sua diversidade, qualificam o modo de viver tropical e abaixo da linha do equador. Não é exceção, é regra. Recompensados como hábeis negociadores, simpáticos e competentes no alcance dos fins, independentes dos meios. Agentes dos freios da indignação, da ruptura e dos protestos. Domina no imaginário tupiniquim a máxima: possuímos dois ouvidos, dois olhos, duas narinas e somente uma boca. Logo, ouça, veja, sinta, mas cale-se. Mantenha a atitude pacífica e merecedora da salvação, pois “Deus é brasileiro”.

Difícil é ser o avesso. Buscar a verdade. Cumprir normas e manter a dignidade e honestidade. Olhar o próximo como igual.  Indignar-se perante os privilégios e as injustiças. Coragem para agir e protestar. Agruras dessa postura são muitas. Inconvenientes, críticos, polêmicos, neuróticos e desiquilibrados. Delírios dos que estão no “mundo da lua”. Sempre foi assim, e assim será. Descartados pelo status quo que maltrata, discrimina e persegue os desiguais.

​A história registra que o “Brasil fura-fila” vem de longe. Acompanha a contemporaneidade e chega no presente. O recrutamento para os serviços estatais por concurso público, tornou-se obrigatório somente há trinta e três anos passados. Ainda hoje, funções públicas não respeitam o notório saber, nem a idoneidade moral, apenas o quem indica. O professor e cientista social Jessé Souza, relata que o “patrimonialismo, personalismo, populismo, jeitinho brasileiro, bem como a histeria em relação à corrupção política – visam criminalizar o Estado sempre que este se coloque como representante de demandas populares”. Nos anos oitenta, quase meio século passado, um periódico do Sul brasileiro, a banda mais rica e desenvolvida do País, trouxe na sua página primeira: “chega de corrupção, violência, fome, poluição, desemprego, mordomias e incompetência”. Não parece ser ontem, mas hoje e agora, no tempo dos “fura-filas” da vacina. Nada diferente do passado, nem do contemporâneo, apenas revigorados pelos ativados interesses no presente. Diz ainda o professor Jessé: “como amamos justificar o que somos, exatamente por conta disso costumamos odiar a verdade”.

Manoel Moacir Costa Macêdo, é engenheiro agrônomo

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