DOCE VIDA Por Manoel Moacir Costa Macêdo

Manoel Moacir, 12 de Fevereiro, 2021 - Atualizado em 12 de Fevereiro, 2021

O viver no planeta, não é igualitário entre os viventes. Existem diferenças entre pobres e ricos, desenvolvidos e subdesenvolvidos. Numa única humanidade, os humanos estão apartados por necessidades vitais. Desigualdade persistente e perversa. Fome, doença, violência e desesperança assolam o concerto das nações. Uns famintos e desnutridos, outros obesos e saciados. Uns letrados, outros analfabetos. Uns com muito, outros sem nada. Dilemas entre possibilidades e necessidades. Não são rogos ideológicos, mas lamentos humanitários.

​Indicadores da qualidade de vida qualificam as nações. Destaque para dois deles. O Índice de Desenvolvimento Humano - IDH. Quanto maior, melhor a qualidade de vida. Medida da riqueza, alfabetização, educação, expectativa de vida e natalidade. A Noruega no continente europeu, lidera à qualidade de vida, com IDH = 0,957. A República do Níger, na África, no 188º lugar, é a nação mais pobre do mundo, com IDH = 0,394. O Brasil está no 84º lugar com IDH = 0,765. A América Latina, com IDH = 0,766. A média mundial, é IDH = 0,737. A OCDE, conjunto de países desenvolvidos, IDH = 0,900. Louvores ao Uruguai na América do Sul, 55º lugar, IDH = 0,817.

Outro relevante indicador é o Índice de Percepção da Corrupção - IPC. Oriundo da compreensão de executivos, investidores, acadêmicos e estudiosos. A quantificação da “propina, do desvio de recursos públicos, da burocracia excessiva, do nepotismo e da incapacidade dos governos em conter a corrupção”. Varia de 0 a 100 e mensura a honestidade dos países. Quanto maior o IPC, mais honesto e menos corrupto é o país.

Tem sido tímidas as medidas de combate à corrupção no Brasil e êxitos não foram logrados. O País está no 106º lugar entre os 190 países selecionados, com o IPC = 38. América Latina, IPC = 41. Mundo, IPC = 43. OCDE, IPC = 64. Destaque para a Dinamarca, na Europa, a nação mais honesta do planeta com IPC = 87. Aplausos ao vizinho Uruguai, no 21º lugar com IPC = 71. Tristeza e lástima para a Somália na África, IPC = 9, o país mais corrupto do mundo. O IPC mostra o desvio do que é público, para o privado, pessoais e familiares. Estruturas frágeis de controle e fiscalização no uso dos recursos públicos. Licitações públicas viciadas e restrições às informações e a liberdade de expressão. Recursos e serviços públicos que deveriam chegar aos carentes e invisíveis, são abocanhados sem “dó, nem piedade” pelos gulosos e influentes, acomodados no estrato superior da desigualdade social.

         Os dois indicadores levam a óbvia conclusão. Os países com maior desigualdade, são também os mais corruptos e estão no continente africano. Os mais ricos, honestos e com menor desigualdade, estão no Velho Mundo, no continente europeu. A bárbara relação histórica entre impérios e províncias, colonizadores e colonizados, exploradores e explorados, centro e periferia sob o manto da escravidão, está atualizada nos retardatários índices de desenvolvimento humano e de honestidade. Travas à igualdade e justiça social.  Bonanças contemporâneas são similares aos que estão à beira dos palácios e gabinetes das Cortes de pobres e ricos, honestos e corruptos. Brasília, capital do Brasil e Niamey capital da República do Níger, possuem concorrentes mordomias e apartheids entre poderosos e subalternos.  Quão dolorosa e sofrida são as vidas das criaturas nos países com IDHs muito baixos e IPCs muito altos. Uma mistura perversa e cruel entre pobreza, corrupção, violência e desigualdade vis-à-vis os privilégios de minorias protegidas e insaciáveis nas estruturas públicas de poder desses países.

O Brasil, nação de renda média, de um lado está entre as dez maiores economias do planeta, e do outro, é o nono país mais desigual do mundo. Riqueza concentrada nas mãos de poucos. Em torno de 50 milhões de brasileiros e brasileiras estão desnutridos ou com fome aguda, desses, 28 milhões na miséria, com ganhos de até oito reais por dia. A população de miseráveis no Brasil é a soma da população de Portugal, Noruega e Grécia. Os pobres e desiguais brasileiros estão ente os 90% que apropriam um pouco mais de 50% da riqueza nacional. Como canta o tropicalista baiano, esses “tem que comer o [amargo] pão que o diabo amassou”. Enquanto, os 10% mais ricos, concentram 42% da riqueza nacional e do alto da concentração de renda, aproveitam a vida adocicada por “chocolate, leite condensado, chicletes, caldas e recheios”. Recursos públicos subtraídos dos invisíveis da “pátria amada”. Canta ainda o menestrel da Bahia: “[...] Ó, mundo tão desigual. Tudo é tão desigual [...]”. Nada resiste à permanência, tudo está em constante movimento.


Manoel Moacir Costa Macêdo, é engenheiro agrônomo e advogado

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