A SERVIDÃO VOLUNTÁRIA E O NOVO RADICALISMO

Manoel Moacir Costa Macêdo e Manoel Malheiros Tourinho

Manoel Moacir, 26 de Fevereiro, 2021 - Atualizado em 26 de Fevereiro, 2021

A ciência social, além da teoria e do método, tem na realidade o fato social como objeto de estudo. A completude do positivismo científico, embora não universal e concordante, conforme Paul Feyerabend em sua obra “Contra o Método”. A força do “método normal” recai sobre o “pós-facto”, isto é, as consequências do fato acontecido, suscetível aos riscos de sua variabilidade. Isto torna a ciência social frágil em traçar cenários. Pouco, quase nada, ou incompleto, sobre o “ex-ante”. Sujeitos-históricos são afastados, mesmo tratados como “objetos”. Traços da “ciência normal”, nas ciências sociais.

Chama atenção, pelo tempo passado, as premissas de dois pensadores da vida social, em particular as consequências na atualidade, respectivamente Étienne de La Boétie, na obra “Discurso para servidão voluntária”, um clássico escrito no século XVI e Teodor Adorno, no livro “Aspectos do novo radicalismo de direita”, oriundo de uma conferência em 1967. A polarização é danosa a sociedade. Esvazia o debate, cassa o contraditório e aborta o pensamento. Ela destrói a solidariedade social. Aproximar de ideias autoritárias é aproximar da servidão voluntária e abdicar da liberdade necessária ao desenvolvimento pleno dos indivíduos, como parte do Todo coletivo. Vários organismos públicos missionados à construção da sociedade democrática se mostram fragilizados e entregam-se facilmente aos cenários da exclusão. A universidade pública é uma desses, devido à importância da relação simbiótica entre a democracia e a educação.

A sociedade brasileira explodiu como um grito sufocado de ódio, rancor, intolerância, polarização e desprezo à democracia. Solidariedades ocasionais cedem à “sociedade do ódio” permanente. Realidade inédita na contemporaneidade. Nas últimas três décadas, o estado democrático de direito, orgulhava os brasileiros e brasileiras pelas garantias individuais e direitos sociais. No entanto, há de reconhecer que para alguns historiadores, “o Brasil foi um experimento econômico, antes de ser uma sociedade. 40% dos escravos africanos foram desembarcados por aqui”. Não eram seres sociais, mas objetos privados. A propriedade privada até hoje se estende aos humanos.

Para os incautos, uma surpresa, para os atentos, a generalização das premissas levantadas por esses dois pensadores. La Boétie, escreveu que existe uma adoração à tirania e maior prazer na servidão que na liberdade. Quem é oprimido, oprime também. Apontou três razões para a servidão voluntária: o “hábito”, por ele somos ensinados a servir e nos escravizamos. A “covardia”, sob a tirania, mesmo que disfarçada, os homens se acovardam e se escravizam. A “participação na tirania”, os interesseiros que se deixam seduzir sob a guarda do tirano, com os que garantem e asseguram o seu poder. Nas universidade públicas brasileiras a eleição de reitores se faz sob o manto da subserviência, da opressão e da covardia dos que aceitam o jogo desses interesses.

Adorno, não formulou uma teoria do radicalismo de direita, mas observações sobre os movimentos fascistas que ainda perduram. A concentração de capital, pode eliminar camadas sociais da burguesia. Com isso, o medo e ódio ao comunismo, que se tornou uma palavra para assustar e discriminar, sem que o mundo pós-guerra tenha vivido, em qualquer país, o consenso do comunismo. Similar repúdio aos chamados intelectuais de esquerda. No desemprego tecnológico, os trabalhadores sentem-se como potencialmente supérfluos, descartáveis, como qualquer copo-plástico, engrossando as máquinas dos “terceirizados-precarizados”. Ameaça dos gigantescos blocos econômicos. Os jovens são atraídos pelos sintomas dessa catástrofe social, oriunda de uma democracia que não responde ao seu conceito. Angústia e delírio alimentados pela propaganda política e ideológica, que conduzem aos fins irracionais. Sistema delirante e perfeição tecnológica potencializam o radicalismo político de direita. Estamos longe da neutralidade tecnológica, pois tecnologia é cultura também. Antissemitismo e neonazismo. Os movimentos fascistas evocam a democracia e acusam os outros de antidemocráticos. Abuso da inverdade como verdade. Apelo e culto à personalidade. Aos contrários, “traidores da pátria”. Na “tirania é o povo que gera seu próprio infortúnio, cúmplice dos tiranos”.

Para Adorno, a resistência haverá de partir da cisão da consciência das pessoas e do abalo à personalidade dos radicais de direita. Sociedades quase a perder o seu caminho histórico passam a acreditar em “mitos de oportunidades” e se tornam rapidamente esquecidas dos seus apagões democráticos.

 

Manoel Moacir Costa Macêdo e Manoel Malheiros Tourinho, são respectivamente PhD pela University of Sussex, UK e University of Wisconsin, USA.

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