PLÚMBEOS TEMPOS NA ESCOLA DE AGRONOMIA Manoel Moacir Costa Macêdo e Gutemberg Armando Diniz Guerra

Manoel Moacir, 05 de Março, 2021 - Atualizado em 05 de Março, 2021

As movimentações na década de sessenta e setenta, foram marcantes na história brasileira e mundial. As revoltas estudantis na França e a revolução dos barbudos de Cuba, são alguns exemplos. No dizer do historiador Eric Hobsbaw, a década de setenta “desmoronou” o mundo. Nessa década, erámos universitários na Escola de Agronomia da Universidade Federal da Bahia - EAUFBA. Os dois primeiros semestres, foram cursados nos campi da UFBA em Salvador. Experimentamos como calouros deslocados da massa universitária, atividades políticas e artísticas patrocinadas pelo movimento estudantil. No restaurante universitário e repúblicas estudantis, efervesciam as inquietações.

A continuidade do curso de agronomia no campus de Cruz das Almas possuía identidade própria. Linearidade no programa curricular, reduzido número de estudantes e professores, numa realidade interiorana. Não era um ambiente universitário em sua completude. Agrupamento isolado de jovens depositários de conhecimentos agronômicos sob a ideologia da Revolução Verde. Afloraram ações e lideranças políticas relevantes, algumas de alcance nacional. Além do campusuniversitário, havia em Cruz das Almas, um relevante polo fumageiro. As condições edafo-climáticas do planalto cruzalmense favorecia o cultivo do “fumo capeiro”, matéria-prima para a fabricação artesanal de charutos similares ao famoso “Cohibra” de Cuba. Empresas multinacionais foram estabelecidas e com ela, o intermediário rico, o operariado miserável e o produtor rural pobre. Ambiente onde prosperou o clandestino Partido Comunista Brasileiro - PCB.

Os estudantes de agronomia da EAUFBA dos anos sessenta e início dos anos setenta fizeram história. Alguns foram presos e acompanhados pelos órgãos de repressão política durante e após o curso. Eudaldo Gomes foi exilado em troca de um embaixador sequestrado, adiante foi assassinado pela delação do Cabo Anselmo. Armando Rosa foi preso no clandestino Congresso da União Nacional dos Estudantes - UNE em Ibiúna, São Paulo e proibido de se matricular em qualquer estabelecimento de ensino por três anos, pelo arbítrio do decreto-lei nº 477, de 1969, que “previa a punição de professores, alunos e funcionários de universidades considerados culpados de subversão ao regime militar”. Estudantes da EAUFBA que sofreram prisões políticas no ambiente estudantil e após ele: Amílcar Baiardi, Armando Rosa, Bandeira Ramos, Carlos Costa, Cyro Mascarenhas, Delmo Naziazeno, Eudaldo Gomes, Gumercindo Kruschev, Lourival Gusmão, Luiz Mário e Rosalvo Alexandre. Da turma de 1973, Lourival Gusmão militava no clandestino Partido Comunista do Brasil - PC do B. No corpo dos funcionários, o modesto, negro, sindicalista e discreto Martinho sofreu prisão e perseguição política. Os estudantes chamados de“Tupamaros” articulavam com grupos de resistência à ditadura militar.

Inexistia no ambiente estudantil um senso crítico da seleção e inserção dos professores na universidade. Desconhecíamos os seus bastidores. Saltavam aos olhos as posições do professor José de Vasconcelos, em apoio a greve estudantil de 1975, apesar de ter louvado o golpe militar de 1964 quando exercia a direção da Escola. A repressão era declarada pelo diretor e vice-diretor, respectivamente os professores Zinaldo Sena e Manuel Mendes, censurando assembleias, peças teatrais, músicas e o discurso de nossa formatura. Um reacionário português, fugido da guerra civil de Angola, foi acolhido como professor na EAUFBA. Os professores das ciências sociais, José Assis e Lourival Santos, reproduziam as teorias funcionalistas do consenso. Dizia o mestre Assis: a extensão rural é um processo educativo que ajuda o homem do campo a ajudar a si mesmo. Afonso Ramos, com um discurso altivo, enfrentava abertamente a disputa à direção da Escola. Alino Santana verbalizava uma retórica pessoal e localista. Outros, como Antônio Conceição, dedicava-se exclusivamente ao labor de professor e pesquisador.

Jovens professores como Djael Dias, José Alberto, José Carlos e os irmãos Heraldo e Luciano Sampaio, entre outros, chegaram no curso em andamento e foram acomodados pelos catedráticos. Alguns tinham um passado de liderança política. Luiz Mendes, fora Presidente do Diretório Acadêmico Landulfo Alves - DALA e promoveu um seminário, onde se debateu a reforma agrária. Nenhum incômodo dos velhos e novos mestres ao status quo vigente. Ao final dos anos setenta, a centenária EAUFBA, foi ocupada pelo Comando da 6.ª Região Militar do Exército Brasileiro. Diziam à “boca miúda”, com o apoio de alguns professores vinculados à ARENA, o partido da ditadura.

​Baiardi, preso e perseguido político, no artigo “A perseguição política e a homofobia na antiga Escola de Agronomia da Universidade Federal da Bahia”, escreveu que no período de 1963 a 1973 foi demitido o professor Hans Alfred Rappel, “acusado de ser comunista e homossexual” e o “afastamento e suspensão dos vencimentos por quase doze meses do professor João Saturnino da Silva acusado de ser subversivo e inconveniente”. A história pelos seus registros pode ser vingativa. Para o pacifista Dalai Lama: “o período de maior ganho em conhecimento e experiência, é o período mais difícil da vida de alguém”. 

Manoel Moacir Costa Macêdo e Gutemberg Armando Diniz Guerra, são engenheiros agrônomos.

 

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