SERINGAS VAZIAS por Manoel Moacir Costa Macêdo

Manoel Moacir, 12 de Março, 2021 - Atualizado em 12 de Março, 2021

​A última pandemia que maltratou a humanidade, foi a gripe espanhola em 1918, no século passado. Tempo de guerras, doenças e tragédias. No século XX, foram dizimados cem milhões de humanos. Raros os testemunhos vivos desse flagelo humanitário. Os registros eram precários. As comunicações inexistiam. As terapias rudimentares. A ciência não tinha respostas. A morte, o alívio das dores e aflições. O determinismo religioso, o consolo dos culpados.  

O mundo se tornou uma aldeia global. As inovações tecnológicas explodiram. A apartação entre ricos e pobres alargou. Humanidade separada entre uma minoria rica, desenvolvida e civilizada e outra majoritariamente pobre, miserável e retardatária. Os ganhos do progresso, seletivos e privados. Avanços insuficientes para romper a persistente desigualdade. O acolhimento solidário entre os humanos, uma utopia para os deuses invisíveis.

​No século XXI a humanidade experimenta a primeira pandemia: a Covid-19. Registros armazenados nas nuvens. Comunicações em tempo real. Ciência eficaz.  Inovações tecnológicas velozes. Vacinas em tempo recorde. O aparthiedentre os que tem e os que nada possuem, aprofundou. A riqueza concentrou em poucas mãos. A humanidade segregada como se não fosse única. A pandemia, atiçou as dores, privações, contaminações, asfixias, sequelas e mortes. Nem os pecados mortais da religiosidade cristã acautelam o egoísmo, a usura e a corrupção. Sucesso científico, fracasso ético.

No Brasil, beira os duzentos e setenta mil mortos. O segundo país com maior número de vidas perdidas no planeta. Cenário de horror e óbitos. As novas variantes do coronavírus transmissíveis e letais, exigem proteções e cuidados coletivos. Para um cientista, acreditado na comunidade cientifica internacional: “neste momento, o Brasil é o maior laboratório a céu aberto onde se pode observar a dinâmica natural do coronavirus sem qualquer medida eficaz de contenção. O mundo vai testemunhar a devastação épica que o SARS-Cov. 2 pode causar quando nada é feito de verdade para contê-lo”.

As pandemias presentes e passadas não alteraram o padrão evolutivo da humanidade. Piedade e misericórdia não contaminaram, ficaram fora da cura. Não vingou a máxima de “amar o próximo como a si mesmo”. A ciência respondeu com presteza, mas, as vacinas não chegam para todos. Os poderosos e distinguidos, a exemplo dos “fura-filas”, protegidos primeiro. Os pobres e desvalidos, ao final ou nunca. A moléstia em teoria ameaça as criaturas, mas, na prática é seletiva. Ataca preferencialmente os vulneráveis, os invisíveis, fragilizados e desprotegidos. Décima segunda economia do planeta, maior na desigualdade e desonestidade. Nação de renda média, carece dos meios para socorrer igualmente os seus naturais. Adoecida por crises política, social, econômica e sanitária; prejudicada na prescrição de receitas preventivas e controle da doença no tempo devido. A cristandade em “nome do pai”, não perjurou os “vacinados-vips”, as dolosas perdas e nem os desvios do líquido da vida nas escassas seringas.

Honestamente, nenhuma surpresa. A ética e a moral, não distinguem o “modo brasileiro de ser”. O “jeitinho, vantagens e espertezas” são as marcas preferenciais de nossa gente. O inacreditável aconteceu: a criminosa vacinação com “seringas vazias”. Aplicações fraudulentas em populações vulneráveis e prioritárias. No lugar do remédio da vida, os ventos da mentira e do pecado.  O vazio da morte nas seringas vazias. Tipificação penal: homicídio qualificado, com motivação torpe e requintes de crueldade. Ao final o que acontecerá? O repúdio e indignação de poucos, numa ancestral e insana polarização. Um novo escândalo ocultará o anterior.

Dizem que nas crises, afloram soluções e lideranças. Após um ano de “dores e ranger de dentes” pela pandemia, onde estão elas? Cadê as representações políticas de ofício e as contestatórias? Quais as soluções publicizadas e aglutinadoras? Quem assumiu as responsabilidades com fervor e altruísmo? Responde o folclore rio-realense: “o gato comeu”. Em ocasiões de guerra, tal qual o tempo da pandemia, não reluziram os iluminados e iluminadas como faróis e bálsamos para aliviar os sofrimentos. A urgência rejeita a espera. Não cabe esperança. No “longo prazo, estaremos todos mortos”.

Manoel Moacir Costa Macêdo, é engenheiro agrônomo e advogado.

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