A CASA DOS BONS ESPÍRITOS Gutemberg Armando Diniz Guerra e Manoel Moacir Costa Macêdo

Manoel Moacir, 26 de Março, 2021 - Atualizado em 26 de Março, 2021

A preciosa contribuição dos humildes passa despercebida pela soberba dos letrados e cultos. Na casa de Rita e Isolina no bairro dos funcionários no campus da Escola de Agronomia da Universidade Federal da Bahia - UFBA em Cruz das Alams no recôncavo baiano, moravam, além delas, Enedina, solteira e Memeu na sua infância entre oito e dez anos. Um dos três quartos dessa modesta moradia foi alugado aos estudantes Bival da Conceição, Domingo Haroldo e Manoel Moacir. A garagem para uma judia, estudante de agronomia transferida do Pará, de cabelos lisos, negros e compridos, trajes despojados e coloridos no estilo hippie da época. Adjutórios na renda familiar, daquela casa acolhedora de parentes, amigos e visitantes.

Um jardim modesto na frente, uma touceira de bananeiras no quintal e algumas árvores frutíferas completavam o cenário rural. Isolina, branca, cabelos prateados, vivia acamada, sob os cuidados carinhosos e pacientes da negra Rita, cabelos encaracolados e frequentemente arrumados em um lenço colorido. Não sabemos desde quando estava naquela situação. Era comovente e edificante o jeito como Rita cuidava de Isolina, sua mãe adotiva, pelo que ela mesma dizia. As duas viviam em sintonia que impressionava pela serenidade. Sem lamentos, sem escaras, o corpo e roupas de Isolina estavam sempre limpos, rescendendo perfumes suaves de alfazema. Todo constrangimento se desmanchava quando se começava a conversar com elas.

Isolina teria sido funcionária da Escola de Agronomia e uma doença degenerativa a levou para o leito, aposentou-se e ali ficou a ser tratada por Rita, também funcionária da instituição. Embora o universo da acamada fosse o restrito espaço do quarto, seus olhos ganhavam, no máximo, o que era possível no enquadramento da janela para o vasto campus da universidade. O diálogo com ela se dava em um patamar que demonstrava bom nível de cultura geral e tranquilidade. Vez ou outra, um beija-flor flutuava fazendo graça na moldura da janela, borboletas pousavam na tela a abanar suas asas, bem-te-vis gritavam como a lhe fazer agrados e engraçadas pirraças nos ramos das árvores ao redor da casa. Enedina era a provedora das obrigações e cuidados da casa. Memeu na sua idade juvenil criava pássaros em uma gaiola e preás selvagens que eram caçados quando da aração dos campos para os cultivos e práticas das disciplinas de mecanização agrícola frequentadas pelos estudantes.

Bival, espiritualizado, apreciador da filosofia Rosa Cruz, acreditava que ali estava uma demonstração de que outras vidas tinham atravessado o tempo e dispostas em interpessoalidades que explicavam tamanha dedicação, consolo e afinidade. Manoel Moacir, materialista e ateu, cumpria a receita de um tempo de ser de esquerda, deslocado da imaterialidade. Domingo Haroldo carregava a sociabilidade germânica a lembrar na face o formato de entidades egípcias. A judia Sarah tinha um astral que parecia em sintonia com os espíritos da casa.

Não por acaso, após o compulsório despejo pela conclusão do curso, Manoel e Haroldo foram substituídos naquela aconchegante residência por Helbeth Lisboa de Oliva, espírita que ali fez a sua morada. Nos cânones da doutrina espírita, não existe acaso e coincidência, mas contingências do paradigma da pós-materialidade. Havia naquele ambiente uma atmosfera espiritual que não carecia de declarações, nem atos de fé. Isso era um dado na prática civilizada e coerente dos habitantes fixos e passageiros do lugar.

A espiritualidade de Bival, o amor de Rita por sua mãe adotiva, a altivez de Isolina, a despojada vida da judia, a chegada do espírita e a inocência de Memeu não foram suficientes para romper o materialismo de Manoel e a racionalidade alemã de Haroldo. As bênçãos daquele presente foram acolhidas no futuro próximo por quem “teve olhos para enxergar e ouvidos para escutar”.

 

Gutemberg Armando Diniz Guerra e Manoel Moacir Costa Macêdo, são engenheiros agrônomos

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