“BRASIL PROFUNDO” por Manoel Moacir Costa Macêdo

Manoel Moacir, 27 de Agosto, 2021 - Atualizado em 27 de Agosto, 2021

 

Enganou-se quem imaginou o conteúdo desse escrito pelo título. Ele não abordará os crônicos problemas sociais brasileiros. Não será comentado o desmatamento da Amazônia, nem a desigualdade social e menos ainda o concentrador agronegócio. Ao contrário, o título expressa o status quo da política brasileira. O enfoque foge das miudezas dos partidos políticos, das estéreis discussões eleitorais e da polarização insana. A abordagem concentra em fatos sociais e teorias à luz da história, da ciência política e da sociologia.

Observadores menos atentos sobre os governos eleitos em Estados-nações com bandeiras em valores e costumes conservadores, simplificam a profundidade da crise da democracia representativa. Eles camuflam a complexidade exibida no voto direto dos cidadãos e cidadãs nos países do Velho e Novo mundo. Alguns são patronos da democracia e das liberdades individuais, e outros são oriundos de cruéis impérios. No caso brasileiro, a surpresa carece de explicações fidedignas. Nenhum analista, nem mesmo os futurologistas foram capazes de prever e generalizar as razões dos resultados da última eleição, principalmente do poder executivo federal. Os eventos eleitorais nos Estados Unidos, Hungria, Polônia e no Brexit – a saída da imperial Inglaterra da Comunidade Europeia – apenas como exemplos, não chamaram a atenção dos terráqueos tupiniquins.  

Predomina ainda a retórica do velho paradigma em crise, isto é, a lógica em uso nos desacreditados partidos políticos, na mobilidade social dos pobres, na suposta alienação da juventude, nos eventos de corrupção e na descrença na “velha política”. Não se deram conta que outros sentidos amadureciam em paralelo, como as mídias alternativas, as gerações millenials e Z, as fake news e o desprezo à liberdade, como descrito na histórica “servidão voluntária”.  Um caldo nutritivo para as transformações sociais. No entanto, requer identificar a estrutura estratégica desse processo global, quer dizer a inteligência que há décadas formulam as ações nas sombras. Uma das premissas a merecer confirmação: a ascensão conservadora não é uma ação exclusivamente endógena, mas também exógena, na lógica reconstruída do tradicionalismo e do populismo de direita.

Algumas respostas estão sendo reveladas, outras exigirão tempo e prospecções científicas. Uma delas consta no capítulo “Brasil Profundo” da obra “Guerra pela Eternidade: o retorno do Tradicionalismo e a ascensão da direita populista”, do professor Benjamin Teitelbaum, da Universidade do Colorado, Boulder, Estados Unidos. Ela não tem merecido o devido acolhimento dos brasileiros. O autor “associa pela primeira vez de forma sistemática, a influência de Steve Bannon, Olavo de Carvalho e Aelksandr Dugin no crescimento da direita populista no plano internacional”. As estratégias desses intelectuais foram testadas em seus países, respectivamente nos vitoriosos governos dos Estados Unidos, Brasil e Rússia. Não foram coincidências, mas construções teóricas numa complexa estrutura formuladas no longo lapso temporal, dentro e fora dessas potências continentais. Não foi o acaso, nem o determinismo, mas ações concretas e planejadas de inteligência na perspectiva do poder tradicionalista e do novo populismo de direita.

No caso particular do Brasil, é relevante verificar o antes e após a vitória eleitoral do atual governante do poder executivo federal. O processo eleitoral pelo sufrágio do voto popular não foi motivado apenas pelas contingências internas. Não são desprezadas as insatisfações estimuladas pelos instrumentos de controle social, a exemplo da grande mídia, do empresariado conservador, da história escravocrata e da “classe média branca”. Também está em construção uma nova ordem mundial, o ódio ao comunismo, o tradicionalismo cultural e os valores conservadores, a exemplo do divino. Afirmou Olavo de Carvalho em entrevista ao autor da obra, entre outras citações: “[...] acho que seria bom se o Brasil ficasse do lado dos Estados Unidos, mas isso não vai acontecer, porque todos os militares são pró-chineses - eles amam a China e odeiam os Estados Unidos. E a maioria dos políticos também. Então o Brasil é um aliado [e] um instrumento da China [...] Atrair a Rússia para os Estados Unidos - e a China ficará isolada”.

A atualidade brasileira, a exemplo dos conflitos diplomáticos com a China e a prática governamental de alguns ministros e parlamentares alinhados ao pensamento de Olavo de Carvalho, comprovam as premissas levantadas pelo filósofo brasileiro. O tempo dirá, se estão em teste experimentos superficiais e passageiros ou realidades duradouras e profundas de uma nova sociabilidade.

[TEITELBAUM, B. R. Guerra pela Eternidade: o retorno do Tradicionalismo e a ascensão da direita populista. Campinas, SP: Editora da Unicamp. 2020 (tradução de Cynthia Costa].

Manoel Moacir Costa Macêdo, é engenheiro agrônomo e advogado.

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