RELEMBRANDO TALENTOS por Manoel Moacir Costa Macêdo

Manoel Moacir, 11 de Setembro, 2021


O curso universitário de engenharia agronômica na Escola de Agronomia da Universidade Federal da Bahia - EAUFBA na década de setenta, trouxe aprendizagens que ultrapassaram a sala de aula e continuaram pela vida. O currículo era amplo. Disciplinas com foco geral: agricultura, zootecnia, silvicultura, engenharia rural, topografia, mecânica e máquinas agrícolas, estatística experimental, genética, melhoramento de plantas e química agrícola. As de conteúdo específico: fruticultura, horticultura, grandes culturas, sociologia, economia e extensão rural. Não existiam computadores e nem internet. Os livros disponíveis na biblioteca eram restritos. Restavam as apostilas anotadas à mão pelos “CDFS”, disputadas para consultas e “colas” nas apreensivas provas.

A meta era formar engenheiros agrônomos no paradigma da Revolução Verde. Maximizar a produção e produtividade linear das lavouras e criações. A sociabilidade dos produtores rurais, o protagonismo dos consumidores e a desigualdade social estavam fora da agenda. A sociedade era rural em costumes e valores. A reforma agrária e o êxodo rural estavam na pauta política, contrariando a ditadura militar. Nas décadas de sessenta e setenta no Brasil, migraram do campo para cidade, uma multidão de brasileiros e brasileiras. Adiante, as externalidades negativas, favelas, miséria, fome e violência. Não se falava em agricultura biológica e nem em meio ambiente. Sobre a problemática ambiental, constava na grade curricular apenas a insólita disciplina “Conservação de Solos”.

As aulas eram ministradas pela pedagogia tradicional, concentrada em fitotecnia, fertilizantes químicos, inseticidas e fungicidas. Uma palestra da engenheira agrônoma Ana Primavesi, professora e estudiosa da agricultura orgânica e manejo ecológico do solo, foi uma novidade e tanto. Ao invés de uma contribuição científica, a apresentação foi comentada como protesto político. Suponho que os idealizadores foram fichados como “subversivos e perigosos à segurança nacional” pelos infiltrados do Serviço Nacional de Informação - SNI.

Predominava o romantismo do engenheiro agrônomo, profissão masculina, dos fortes, dos resistentes às intempéries ao tempo e limitada à propriedade rural. Talentos dentro e fora da agronomia foram aflorados e outros sufocados. Excepcionalmente arriscarei citar alguns colegas e os seus talentos, entre tantos outros que a memória não guardou. Antecipo as desculpas pelos esquecimentos. “A memória é uma modalidade de consciência”. Músicos, políticos, poetas, empresários, esportistas, lideranças, pesquisadores e professores reconhecidos, iniciaram os primeiros ensaios no tempo universitário.

Ton Ton Flores dotado de melodiosa voz, continua cantando as suas canções em louvor à vida. Jackson Ladeia, Paulo Leite e Vanderlã Ribeiro, alunos diligentes e empresários de sucesso. Domingo Haroldo, Edna Carvalhal, Gilenio Borges e Maria Vidal, estudantes dedicados, professores e pesquisadores reconhecidos. Itatelino Junior, Jodemir Freitas, Milton José e Ailson Néry, dedicados estudantes e extensionistas rurais aprovados. Paulo Reis e Renato Brasileiro, universitários responsáveis, gestores e lideranças corporativas aplaudidas. José de Santana, foi prefeito de sua terra, Conceição do Almeida, Bahia. Lourival Gusmão, combativo estudante e profissional saudado e idealista. Jorge Rizerio exímio jogador de futebol e profissional diligente. Luiz Paulo, estudante reconhecido e educador distinguido. Samuel Feldman, sabedoria e simplicidade. Adonias de Almeida, eleito para cinco mandatos de prefeito pelos eleitores de Boa Nova, Bahia. Destaco ainda Fernando Brito, um fidalgo e duas vezes colegas, nos cursos de graduação e no mestrado na Universidade Federal de Viçosa – UFV.

José Albertino, estudante de proa, o primeiro da turma a cursar o mestrado na Universidade de São Paulo - USP. Professor na Faculdade de Educação da UFB onde concluiu o doutorado nessa área. Gutemberg Guerra, liderança respeitada, orador censurado na formatura e carreira profissional altiva. Auto demitido como protesto na então Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural da Bahia - EMATERBA, extensionista na Igreja Católica, assessor da Presidência da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária - EMBRAPA, doutor pela Escola de Altos Estudos de Sociologia na França e professor na Universidade Federal do Pará - UFPA. Além de poeta, romancista e autor de peças de teatro desde aquela época.

Louvores e alegrias pela fortuna da convivência com talentosos colegas nos distintos saberes. Saudades dos que partiram precocemente e de um tempo marcante na história brasileira e mundial.

Manoel Moacir Costa Macêdo é engenheiro agrônomo.

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