LIÇÕES DO NOBEL DA PAZ por Manoel Malheiros Tourinho e Manoel Moacir Costa Macêdo

Manoel Moacir, 15 de Outubro, 2021 - Atualizado em 15 de Outubro, 2021


Entre os raros encontros da humanidade, louvores sejam dados aos encontros da ciência com a “paz entre os homens e com o meio ambiente dos seres vivos’”. Nos dias presentes, a ciência traz a esperança da paz e bem- viver para os grupos sociais marginalizados e minoritários. O conhecimento cientifico e os seus resultados aplicados na luta contra o coronavírus são extraordinários na pacificação da humanidade. O recente anúncio da vacina contra malária é alento para milhares de humanos dos trópicos úmidos, inclusive da Amazônia continental, portanto um feito histórico. Negar a ciência, é negar o conceito de evolução biológica; é rejeitar o iluminismo; é abraçar a cegueira sem disfarces.

A natureza como obra da Criação está à disposição da humanidade, mas exige uma convivência harmoniosa entre as descobertas científicas e a realidade conservacionista, distributivista e amigável. Líderes mundiais, como Francisco I, o Papa, tem apregoado um olhar bendito à Natureza, com a ajuda da ciência. As recentes densas nuvens de poeira no estado de São Paulo, são conhecidas nos Estados Unidos. São as “dusty storms” dos “been-belts” americanos onde a intensidade de uso do solo na chamada agricultura do “big business” é apontada como as causas. Os solos, intensivamente usados com densas tecnologias físicas e químicas, perdem as suas partículas agregadoras e avoam nas pequenas ventanias.

Anualmente, o solene reconhecimento da Humanidade à ciência é manifestado na outorga do Prêmio Nobel aos cientistas e intelectuais por seus feitos em benefício das criaturas encarnadas. As ligações dos humanos com o seu ambiente foram inspiradoras à Real Academia de Ciência da Suécia, na sua edição 2021. Nas seis áreas concorrentes (medicina, física, química, literatura, paz e economia), em cinco delas os ganhadores e os seus estudos foram eivados de humanismo e relações ambientais: a física, a literatura, a paz e a economia, e lógico, a medicina como não podia deixar de ser. Liberdade, democracia, migração, gênero, desigualdade e mudança climática, vadearam a consciência dos juízes da Academia, que não foram percebidas nas sociedades cuja elite negacionista insiste em fragilizar os avanços da ciência dependente da democracia, da pluralidade e da prática libertária da informação. Essa foi a simbologia tatuada no caso do Prêmio Nobel da Paz, cujos vencedores, a filipina Maria Ressa e o russoDmitry Muratow, ambos jornalistas, militantes dos pregões libertários a favor da democracia, da liberdade de expressão e contra o abuso de poder, do uso da violência praticada pelas redes sociais espalhando “fake news”, do assédio aos oponentes e da manipulação do discurso público. Vencedores foram, por assim denunciar os movimentos autoritários em seus países e que repercutem mundo afora.

O Nobel da Paz de 2021, está em boas mãos. Ele é tão grandioso em sua simbologia que não coube em um único ganhador, mas em dois. As suas contribuições não foram elaboradas em laboratórios, campos de produção ou fábricas industrias, mas na amplitude das contradições da vida social. Os seus resultados são indispensáveis à vida livre e aos direitos e garantias coletivas. Ambos ganhadores tem história e de seus registros não existem escapes. Eles não renunciaram a luta por liberdade e nem faltaram com a coragem na denúncia. Eles não estão protegidos por corporações estatais e nem por bilionários rentistas, ao contrário, atuam sob os riscos do “autoritatismo-metapolitico” e da “elite do atraso” de seus países perpetuadas no “Estado i-liberal-unipartidário”. Eles não têm manchas passadas e nem dubiedades presentes em suas labutas. Eles não têm a força do capital globalizado, mas possuem o domínio da pena, do destemor e do pensar.

Os jornalistas Maria Ressa e Dmitry Muratovsão merecedores ao Nobel da Paz pela luta corajosa em defesa da liberdade de expressão nas Filipinas e na Rússia, países sob as garras da “metapolítica” em avanço no Brasil. Ressa, usou a liberdade de expressão para "expor o abuso de poder, o uso da violência e o crescente autoritarismo em seu país, as Filipinas". Muratov, no jornal independente Novaja Gazeta por mais de duas décadas, “defendeu a liberdade de expressão na Rússia em condições cada vez mais sob ameaças”, onde seis de seus jornalistas foram assassinados. Ambos premiados, não temeram a riqueza, o controle e o poder, que fundamentam as ideologias e orientam as práticas autoritárias. Assim justificou a Comissão do Nobel da Paz pela premiação: "representantes de todos os jornalistas que defendem [o] ideal de [justiça e liberdade]". Não menos significativo foi a outorga da láurea Nobel de Literatura ao escritor negro Abdulrazak Gurnah, da Tanzânia, na África, que desde 1960 é refugiado na Inglaterra. Minoria Abraâmica, como dizia o bispo dos pobres e da democracia Dom Helder Câmara. Todas as premiações acendem no coração dos homens de boa vontade a busca da paz, as luzes que a apologia da acumulação de dinheiro e poder insistem em não acender. Clarear e iluminar “a aliança entre a humanidade e o meio ambiente”.  

A Academia Sueca sinalizou os rumos: estabelecer o nexo profundo entre a agenda social e ambiental e entre a democracia e a liberdade. O nosso cotidiano tem demonstrado historicamente, e agora de forma acentuada, que o ufanismo do mercado, as blasfêmias negacionistas contra a ciência e as agressões ambientais, na Amazônia sobretudo, recaem sobre os mais pobres. É contraditório ser um grande exportador de alimentos e a fome grassando em “campos e construções”. O poeta brasileiro em melodia, cantou em metáfora o sentido do Nobel da Paz de 2021: “A gente não quer só comida. A gente quer comida. Diversão e arte [...] A gente quer saída. Para qualquer parte [...]. A gente não quer só comer. A gente quer prazer. Pra aliviar a dor [...] A gente quer dinheiro. E felicidade. A gente não quer só dinheiro. A gente quer inteiro. E não pela metade [...]”.

Parabéns aos premiados e premiadores.

 

Manoel Malheiros Tourinho e Manoel Moacir Costa Macêdo, são engenheiros agrônomos e respectivamente PhD em Sociologia pela University of Wisconsin, USA e University of Sussex, UK.

 

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