OS SENTIDOS DO GRANDE ENCONTRO por Manoel Moacir Costa Macêdo; Gutemberg Armando Diniz Guerra & Renato Brasileiro Júnior

Manoel Moacir, 19 de Novembro, 2021 - Atualizado em 19 de Novembro, 2021

Foto: Paulo Nacif


Nada mais brutal do que as guerras entre os humanos. A história da humanidade carrega as chagas sangrentas de disputas e explorações entre os nascidos como iguais. Os impérios dos minerais, do pau-brasil, do açúcar e do café, entre outros foram conquistados pela fúria das dores e da morte. Cabeças decapitadas, humanos devorados pelos leões nos coliseus, corpos amassados por patas de cavalos em batalhas sanguinárias e corações dilacerados por espadas afiadas. O saldo de mortes humanas e o quanto de território apreendido qualificavam as vitórias. Em alguns casos, o sangue dos vencidos alimentava os vencedores.

O Homo sapiens, devorou velozmente os Homos à sua frente e moldou a nossa espécie. Na transição à regeneração, somos aprendizes do bem-viver. A era Cristã, símbolo majoritário dos viventes terrenos, mostra a sua pequenez e indiferença perante a grandeza do universo sideral, a máxima: “amai o próximo como a si mesmo”. Evolução tardia do “olho por olho e dente por dente”. No calendário gregoriano, vivemos o tempo de mais de dois mil anos. Insignificante marco temporal no porvir do paradigma da pós-materialidade. Feridas ainda por cicatrizarem no corpo e na alma, abertas a ferro e fogo na recente escravidão - a gênese de nossa identidade.

Milhares de anos advirão para a humanidade alcançar os sentidos do Salmo 113, cantado nos altares cristãos: “Oh! quão bom e quão suave é que os irmãos vivam em união [...]". Os nossos adversas, não são os outros, mas nós mesmos, numa única humanidade terrena. A nossa discórdia advém de nossa inferioridade. Estamos abrigados num único planeta, maltratado e agredido, pelo nosso modo de viver. Os impérios foram substituídos por desiguais estados-nação, a escravidão deu lugar ao trabalho precário e as guerras atrozes à desigualdade profunda. Vivemos transitoriamente a era algorítmica, onde tudo é efêmero e descartável, denominada de “modernidade líquida”.

Tudo isso foi ofuscado pela camaradagem, amizade, afeto e solidariedade entre colegas que iniciaram a caminhada universitária há quase meio século na Escola de Agronomia da Universidade Federal da Bahia - EAUFBA. Nesse tempo, o Brasil era outro e distante do atual. Um novo sentir dominou o “Grande Encontro” sob os olhares do mar azul, das areias brancas e finas, do vento que sacode a brisa da centenária Ilhéus, a "Princesinha do Sul”, a outrora “Vila de São Jorge dos Ilheos” do ciclo do cacau e dos romances de Jorge Amado projetados para o mundo. Experimentamos a harmoniosa convivência, entre diferentes, mas iguais como amigos e colegas pelas amarras da agronomia. A polarização insana e o atraso iluminista, foram apagados das mentes e corações. Afloraram as celebrações, histórias, “estórias”, conquistas, música, desafios, bebedeiras, famílias e sentimentos, como encostos sobrenaturais nos corpos, numa magia consentida pelos deuses. Uma síntese encarnada do consenso, amizade, concórdia e afeto. A força da alegria cimentou o “quão bom e quão suave viver em união” - o elixir da maturidade. Homenagem ao professor Paulo Chiacchio, com o saudoso mestre Conceição nos ensinaram a fitopatologia, a ciência das doenças das plantas. Merecidas homenagens às colegas Clarice, Maria Vidal e Rosa, três das cinco engenheiras agrônomas dos 120 entrantes na turma do curso de engenharia agronômica.

Não estavam todos presentes, mas uma amostra representativa dos aprovados no Vestibular de Agronomia de 1973 da Universidade Federal da Bahia - UFBA e contemporâneos. Uns sós, outros acompanhados. Araquém e Lúcia; Manoel e Rita; Maria e Alfredo; Marcelo e Patrícia; Renato e Leda; Paulo e Renato; Rosa; Tennyson e Soraya. Éramos uma centena entre colegas e familiares. Uns do Pará, como Gutemberg; outros do Piauí como Raimundo; os de Sergipe como Jodemir e Angélica e a maioria da Bahia, como Itatelino, Ednaldo, Erivaldo, Rubem, Valfredo e o bravo Coriolano, entre outros. Estavam os da capital e do interior. Os públicos e os privados. Os retirados e os da ativa. Os com mais e os arremediados. Todos com muito, vitoriosos e felizes. Os faltantes foram lembrados e convidados para o ano vindouro em Aracaju, Sergipe. Temos pressa. “O tempo não para”.  Mais que recordar, o reencontro é o sentido do bem-viver como colegas e “irmãos de verdade”.

Manoel Moacir Costa Macêdo; Gutemberg Armando Diniz Guerra & Renato Brasileiro Júnior, são engenheiros agrônomos.

 

O que você está buscando?